Mostrar mensagens com a etiqueta poesia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta poesia. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 25 de março de 2011

Poema inédito de Alberto Caeiro

É com uma honra daquelas mesmo grandes que divulgo um poema inédito de Alberto Caeiro, poeta conhecido por existir dentro da cabeça do Fernando Pessoa. Siga:



Isto é uma flor
Uma flor
Olha! Uma flor
Até há uns segundos tinha uma flor na mão
E agora?
Agora também tenho uma flor na mão e acho que é a mesma
A flor é linda, as árvores também, e os regatos
Os regatos são lindos
E eu fico a olhar para eles
Porque gosto de regatos.
Um regato! Tão lindo.
O regato
É um regato que tem água
E a água mexe-se sozinha
Cristalina como o sol
E dizer mais seria filosofar demais
Eu não gosto muito de pensar muito
Porque me faz doer a cabeça
Eu gosto de sentir a relva debaixo do rabo
E passo muito tempo de rabo na relva
Ela é linda, e macia
E eu sou como ela
E como o regato
Olha!
Tenho uma flor na mão!
Que linda que é esta flor!

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Momento de Poesia - "Poesia Contemporânea"

Sentir. É ser
É ser-se
Sentir.
.Fazer.
.Agir.
Porque não
A dor
A Dor
de sentir
nos olhos
na boca, nos cabelos
(nos teus cabelos)
Pente, cabo, corda
.jogo de palavras, sensações, estímulos
Estimulados
Estimulantes
Uma paisagem, fria
Calculada
Frita
Insonsa
Croquete
Sentir. É ser. É dar. É fazer.
Fazer a cama
A lasanha
Pasta
Italiano
Um italiano
(com bigode)
O homem é a medida das coisas
Das emoções
Dos gritos
Um grito num corredor
(vazio, como eu)
Vazio como todos
Flatulência
Sabias?
Saber
É ser
E Poder
Ecoponto
As embalagens no amarelo
Os vidros no verde
Verde, como uma planta
És uma planta?
SOU
És
Só que não sabes
a raiz presa na terra e a cabeça presa nos sonhos,
caídos como cartas
as cartas da VIDA
O frio, o calor, o vento. os braços à volta dos ombros. um beijo no escuro
É tudo, é nada
E o que é deixa de ser
Para que o que nunca foi,
Passe a ser também
tão real como o que foi,
mas que deixou de ser
e a fazer
Azul
o céu.

as nuvens


o céu e as nuvens,
(só)

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Momento de Poesia - "Tenho exame de condução daqui a 35 horas e 48 minutos"

Fecho os olhos ao adormecer
Mas em vez de sonhor ver
Orbitam à minha volta
Sinais de cedência de passagem

um stop enorme, maçã encarnada
suculenta
à frente da qual devo parar

um triângulo invertido
flutuando divertido

e peões acelerados
caminhando sobre as zebras

Primeira, segunda, terceira
Quarta quando o motor se queixar
Quinta ao passar dos sessenta
Decoraste?

Adormeço
e sonho com pedais

.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Momento de Poesia: "Poema Literal"

Pensei em escrever-te um poema,
Mas fiquei sem saber o que dizer

Não é fácil, quando a minha pulsação aumenta
E o coração parece querer rebentar
O que claro que não poderia acontecer,
Senão morreria de hemorragia
Interna

Os teus olhos brilham castanhos
É a cor do chocolate
E a cor da lama também
E é a cor do meu gato
E de outras coisas também

E os teus lábios são doces
O que é uma metáfora que achei bonita,
Porque os lábios não são doces
Sabem a saliva,
E a saliva é insonsa

Tens os cabelos suaves
Usas amaciador?
Tenho a certeza que sim
Não uses todos os dias, no entanto
Porque os especialistas aconselham a não lavar o cabelo
Todos os dias
Porque o teu coro cabeludo produz secreções especializadas
E importantes
Que se lavares o cabelo todo o dia
Se desvanecem

Como descrever o que me fazes sentir?
Nem sei, é complicado
É como se o meu organismo
Em constante digestão
Digerisse um grande almoço
Que tanto me satisfez
E agora me dá vontade de dormir
E sonhar contigo, claro

Gosto do teu cheiro,
É bom, é delicado,
Como o aroma de uma rosa
Só que com um toque de suor,
Porque não és uma flor, és uma pessoa
E indicador de que tens um sistema imunitário complementar com o meu
E por isso os nossos filhos,
Sejam meninos ou meninas,
Terão fortes anticorpos

Ah, quando sonho contigo,
A propósito,
Sonho que estamos sozinhos numa praia
E tu me beijas
E de seguida elogias
A minha higiene oral
Porque é boa

Ninguém te ama tanto assim,
Como eu,
Podes crer
Por favor, vem ter comigo
Já sabes a minha morada,
Disse-ta no outro dia
Acho que escreveste na tua agenda
Ao lado do número que aquele rapaz musculado
Te disse ao ouvido

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Momento de Poesia: "Decisão"

Vieste

Foste

Voltaste

Decide-te

Porra

Como é

Então

Troco a minha mulher por ti

Ou não?

.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Momento de Poesia: "Honestidade"

É noite
Frio está
Ao longe,
Bem ao longe
As sirenes da polícia
Fazem eco pelos túneis
E circundam as rotundas
Ao longe,
Bem ao longe


É noite
Está calor
As janelas estão fechadas
O aquecedor ligado
O botão avermelhado
Apontando para o 6
Ao perto,
Bem ao perto.


É noite,
Está moderado
Sente ele
Ao sair da cama
E debaixo dos colchões
Sua amante espera
Ao perto,
Agora longe


É de noite,
Entra ele
Na casa de banho
Para urinar
Urina, pois,
Junto à sanita
Ao perto,
Bem ao perto,
Para não salpicar


É de noite,
Está calor
Dentro da cama
E ela espera,
E respira
Depois da actividade
Está despida
Porque vestida
Não dá jeito
Bem ao perto,
Bem ao perto


É de noite,
Moderado
Está fresco na casa de banho
Ele urinou
Lava as mãos
Olha-se longamente ao espelho
Ao seu lado, a escova de dentes
Do marido que não está
Está longe,
Bem ao longe


É de noite,
Está calor
Ela espera aquecida
Por pouco adormecida
Quando ouve a porta abrir-se
Ele entra, aproxima-se
Entra para junto dela,
Bem ao perto,
Tão ao perto

É de noite,
Está muito, muito calor
Ela quer repetição
Ele recusa, diz que não
Tem de ir,
A esposa espera-o
Bem ao perto, bem ao perto


É noite,
Está calor
Os aquecedores ligados
A mulher, no andar de cima
Espera o seu vivido amor
Foi em viagem de negócios
Está longe,
Bem ao longe


É de noite,
Está frio
A amante manda-o ao sítio
Ele sai da cama quente
De repente
Veste-se e vai
Fica longe, bem ao longe


É de dia,
Está calor
A mulher acorda sorrindo
Ao seu lado tem dormindo
O marido que ama
E perto,
bem ao perto
No andar de baixo
A amante adormece
Sozinha


.

domingo, 29 de novembro de 2009

Momento de Poesia: "Topless (ou Emancipação Feminina)

Os mamilos da menina
Encostados aos corais
São conchinhas pequeninas
Cor-de-rosa naturais

Passa um tipo musculado
E olhando prá menina
Grita logo de enfiada
“Vou saltar-te para a espinha”

A menina sorridente
Sobre a areia deitada
Diz “Assim que aqui chegares”
Tiro-te a pila à dentada”

Ganham cor avermelhada
As bochechas do tarado
Que perante tal resposta
Se virou pró outro lado

Lá estão eles os mamilos
Onda vai e onda vem
São mamilos da menina
Dela e de mais ninguém

.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Momento de Poesia: "Arrota Perdiogota"

Arrota Perdigota

O notário não deixou

Assim ficou

Maria das Neves

Na certidão de nascimento.

E sua mãe, brandindo aos céus

Perdicota nascida e criada

Vilipendiava a burocracia

Do país

Porque, segundo diz

Perdiota queria que fosse

Sua filha

E não a deixam.



(os americanos têm uma forma de descrever o que acabou de acontecer neste Momento de Poesia. Chamam-lhe "hitting a new low")

.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Momento de Poesia: "O Coentro"

Coelho, coelho, coelho
De orelhas levantadas
Pontiagudas almofadas
Rumina calmamente o coentro do almoço

Surpresa das surpresas, claro
Quando do céu azul e claro
Desce o chumbo incandescente

Pontaria certeira, esta
Que envia em linha recta
Recortando a pradaria
Uma bala

Coelho, coelho, coelho
De raiz vegetariana
Cheira agora a carne viva
E a sangue cru e quente

O coentro cai ao solo
Mastigado até metade
O coelho deixou família
O caçador ganhou jantar

.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Momento de Poesia: "Valsa do Abandonado"

Se parasses pra pensar um pouco
Talvez chegasses à conclusão a que eu cheguei também
Naquele dia em que te foste embora

Concluí ali sozinho
Sentado no meio do chão da nossa casa
Que agora é minha casa
Porque foste

Concluí, dizia eu
Sentado no meio do chão
Que se algum dia regressares e me estenderes a mão
Aqui estarei mais uma vez e outra e outra
Sem demora, nunca me irei embora

E quando me estenderes a mão vou agarrá-la com força
Porque sinto a tua falta como nem imaginas
Vou puxá-la para mim, colá-la à minha cara
Pra sentires o ar que sai de dentro do meu peito
Que vem quente cá pra fora porque dentro do meu peito
O meu coração ainda bate por ti

De seguida a tua mão vou encostá-la aos meus lábios
E beijá-la com carinho para que nunca esqueças
Que te amo e que um dia te tentei beijar assim
Mas tu fugiste, foste embora com aquele teu amigo

E por último, sem medos, sem vergonhas
Porque o tempo pra duvidar já passou
Ferro os dentes com força nos teus dedinhos carinhosos
E arranco-os à dentada
Posso até perder os dentes, os caninos, os molares
Mas afinco-os na tua carne doce e sumarenta
Vou-tos arrancar assim, mastigando sem parar
Do mindinho ao polegar

E aí, meu grande amor, tu saberás
Que provocares aquela dor cá dentro do meu peito
Nunca, mas nunca o deverias ter feito

.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Momento de Poesia: "Jeribéria Entristecida"

Jeribéria, entristecida
Relembrando antigamentes
À janela se debruça
Enquanto palita os dentes

Feijoada e coca cola
Ao almoço consumidas
Breve pausa, recordando
Duas tristes despedidas

Jeribéria despediu-se
De dois homens bem roliços
Um de forte barba rija
Outro de dentes postiços

O primeiro a conheceu
Muito nova e inocente
Girassóis e pôr-do-sol
Num Verão sem precedente

Eram novos os petizes
Jeribéria e seu amado
Entre beijos e carícias
Logo chegou o noivado

Jeribéria e seu noivo
Em completa felicidade
Fazem malas e aviam-se
Direitinhos para a cidade

Mal sabiam os pombinhos
Que sem aviso prévio
Desceria sobre o noivo
Um enorme sacrilégio

O segundo a conheceu
Numa festa alargada
Onde Jeribéria, aos tombos
Saltitava enfrascada

Debruçados sobre a cama
E com gritos de prazer
Assim passou Jeribéria
Uns momentos de lazer

Uma noite num hotel
Imensamente a abalou
Jeribéria bem bebida
O marido encornou

Assustou-se de repente
Tremendo num suspiro
Seu marido entrou no quarto
Espumando enraivecido

De vários nomes Jeribéria
Foi chamada nessa noite
E o marido lhe aplicou
Nas bochechas um açoite

O amante, apavorado
Desculpou-se sem vergonha
Enfiando-se apressado
No interior de uma fronha

De nada lhe valeu
A moldável almofada
Quando o marido traído
Lhe aplicou uma estalada

O amante sem sentidos
Vai de encontro ao mini bar
Encolhida Jeribéria
Num canto a choramingar

O marido enraivecido
Com um punho ensanguentado
Mostra um dedo a Jeribéria
E vira-se pró outro lado

Desde essa noite negra
De céu escuro e trovoada
Jeribéria está sozinha
Na cidade povoada

Perdeu um, perdeu o outro
Duas fortes despedidas
Jeribéria soma idade
E maminhas descaídas

Que futuro, Jeribéria?
Para ti abandonada?
Pelo menos tendes isso:
Nunca serás encornada.

.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Momento de Poesia: "Surpresa"

Raimundo espevitado
Numa esquina da cidade
Vai de visita às meninas
E pra isso tem idade

“Quero brasileira ou russa
Escanzelada ou roliça”
Diz Raimundo pervertido
Espevitando a chouriça

Uma das mulheres da vida
Que passava entretanto
Viu Raimundo entretido
Apalpando-se a um canto

Espreitou uma, espreitou duas
Espreitou terceira vez
Decidida a interromper
Perguntou com safadês

“Meu menino primoroso
Queres vir dar um passeio?
O que quer que comecemos
Nunca vai ficar a meio”

Raimundo entusiasmado
Sem saber o que dizer
Agarrou-a pelos braços
Deixou tudo acontecer

Visitaram um motel
Enfrascados em bebida
Tropeçando nas escadas
Mesmo a meio da subida

Degrauzinho a degrauzinho
Lá subiram para o quarto
De toda a expectativa
Já estava Raimundo farto

Logo se trancou a porta
E se desligaram luzes
“Calma lá!” gritou a moça
“Tira a pata, não abuses!”

Mas Raimundo entretanto
Com a língua bem de fora
Baixou-lhe logo a saia
E as cuecas sem demora

Mesmo na sombra do quarto
E com grande embriaguez
Raimundo abriu os olhos
E cobriu-se em palidez

Adivinhem lá vocês
A dar corda à cabecinha:
O que é que pendia mole
Da virilha da mocinha?

Uma pista: a moçoila
Operada em Barcelona
Andava a consumir
Doses de testosterona
.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Momento de poesia: "Física"

Para onde vou tu não te chegas nem ao perto

Sou electrão e tu de carga positiva

Mas afastada a tua corpórea exactidão

Fica no ar o cheiro doce que cativa

Não sou o único, apenas um na multidão

Molécula corada e encaixada entre as outras

Num frasco submetido a altos valores de pressão

Encolho-me pelo mundo e procuro ver-te ao perto

Mas tu afastas-te em profunda aceleração

É-me difícil derrotar toda a inércia

Que me bloqueia os joelhos e o coração

Mas se num dia em que o sol dos céus molhar

Com o seu UV todos os corpos materiais

Tu te encontrares num sistema isolado

Acabrunhado e do mundo separado

Enxuga as lágrimas com seus sais minerais

Vem visitar-me nem que em fase transitória

Talvez um dia tu e eu e eu e tu

Nos encontremos numa mesma trajectória

.

domingo, 27 de setembro de 2009

Momento de Poesia: "Num futuro"

Inaugurando esta segunda temporada do Trajectória Aleatória, um poema. Não há cá métricas nem rimas regulares. Há algumas, no entanto; por isso procurem-nas.


Num futuro, daqui a alguns anos
Quando os carros voarem e vivermos em Marte
Um homem e uma mulher, amigos e amantes
Vão casar, e comprar uma casa, tentar ter filhos
E vão comprar um robot

O robot é útil e amigo
Lava a loiça e a roupa
Muda o óleo do carro
Limpa as cinzas do cigarro
E consegue analisar
Com enorme exactidão
O tempo de amanhã

Faz as camas
e lasanhas
Aquece e a arrefece
Alinha e desentorta
Ninguém nota que ele lá está

Como dizia no reclame
Arruma-se sem esforço
Debaixo da cama

E o marido, satisfeito
Sai de casa bem disposto
Vai para o seu posto, no emprego
Confiando que em casa
Deixa a esposa e o robot
Na maior alegria
Ouvindo música e limpando
As folhas secas do jardim

Mal sabe ele que de dia,
Ao mesmo tempo que se entende
Com os extractos de contas bancárias
E beberica o café que a secretária traz
Jaz a sua esposa na cama
Com tudo desabotoado
Esperando que do outro lado da porta
Surja o robot e diga, na voz de platina oleada
“Encontra-se preparada?”

A mulher semi despida
Solta os caracóis, atrevida, e sorri sensualmente
Com o seu marido frio e esguio
Nunca tinha tido daquilo
Uma tal actividade, de energia sem igual
e robótica precisão
Abre os lábios vermelhos e ordena
“Prosseguir com a introdução”
.

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Momento de Poesia: Roberto e Liliana, Uma História de Amor

Roberto e Liliana
Conheceram-se a dançar
Num cruzeiro em Havana
Numa noite de luar
A paixão foi radical
Rapidinha, colossal
Olhavam-se nos olhos
Não demorou a perceber
Que Roberto e Liliana
Estavam destinados a ser
Um casal muito feliz
E logo passados anos
Liliana teve um petiz
E Roberto descontente
Porque era inteligente
Deu a volta à lembrança
Começou a questionar
O porquê da carapinha
E da pele escura da criança
Fez-se logo um teste
“Minha esposa, que fizeste?”
Pergunta Roberto, a chorar…
E ela, a olhar
Sem sequer pestanejar
Diz: “O filho não é teu”
“Um dia destes me apeteceu”
“Viver uma aventura”
“E depois de acordar”
“E de ir ver o correio”
“Corri de langerie para a rua”
“Fui dormir com o padeiro”

domingo, 25 de novembro de 2007

Momento de Poesia - "A Incontinência"

“Não sejas maltrapilha!”

Diz a gota prá virilha

Escorrendo pelo pénis

Do pobre incontinente

Que, molhado, descontente

De calça repleta de urina

Exclama: “Oh Marina!

Esqueci a fralda na gaveta!”

“Bem feita, seu jarreta!”

Riposta Marina, comovida

Exibindo-se, atrevida

À janela de seu quarto