Mostrar mensagens com a etiqueta sarcasmos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta sarcasmos. Mostrar todas as mensagens

sábado, 13 de agosto de 2011

Setenta e Sete


Caríssimos,

Escrevo-vos na condição de alguém que despreza a obra de André Sardet. É, para mim, um motivo de sarcástico júbilo a chegada de mais um dos seus CD’s ao mercado. Ouço as músicas com um sorriso nos lábios porque, convenhamos, é de chorar a rir. Mas sem exageros; não choro, não me emociono em demasia. Apenas retiro um prazer enorme de ouvir aquelas lenga-lengas pastosas de amor e romantismo de casa-de-banho.

Dito isto, foi com dor, extrema dor, que li a notícia de ontem no Diário Popular intitulada: “Romântica Records Não Edita Mais Sardet”. Ao que me foi dado a entender por esse órgão de comunicação, aconteceu que Sardet tentou (não sei se conseguiu ou não; mas duvido) escrever uma letra e música que não produzem dores na inteligência a quem tem um QI superior a 100; e, para surpresa do país, os meus caros amigos rasgaram o contracto na cara do homem, perdão, do Sardet, porque querem é música romântica da pesada; leia-se, da leve.

Peço-vos com todas as forças que o meu amor por Sardet desperta em mim: não cometam tal erro. Sardet é necessário. A classe média-alta precisa de um Tony Carreira só para si, e todos sabemos que Tonys não há muitos. Tony há só um, Sardet e mais nenhum: e sem editora, Sardet vê-se reduzido a mais um letrista e músico de barzinho nocturno. Além disso, quem pagará o bife à família de Sardet? Apesar do tempo dedicado a compor baladas de estonteante envolvência intelectual e profundidade emocional, Sardet tem tempo de manter relações pessoas com outras pessoas; de que outra forma ganharia a experiência necessária para criar composições nunca antes vistas (pelo menos desde o início da presente semana) de “amor”, “meu” e “beijo”?

O homem quer escrever coisas a sério. Conseguirá? Se o consegue, deixem-no. Ele que esconda uma música mais séria no final de cada álbum, para que as fãs cheguem a essa faixa já a chorar e não reparem no sucedido. Um aumento na qualidade de Sardet é um atentado ao equilíbrio moral e emocional de uma série de raparigas facilmente impressionáveis: impeçam-no, mas não impeçam Sardet de ser Sardet na totalidade. Sardet é Sardet e há que respeitá-lo por isso. Eu, se fosse Sardet, tentaria a todo o custo não ser Sardet dia nenhum da semana.

Em resumo: mantenham-no nas vossas listas de artistas de variedades, estipulem um qualquer contracto para manter a má qualidade dos álbuns uma constante, mas pelo amor de deus nosso senhor:  

Imploro, pela força do Amor, que retenham Sardet e não o deixem fugir. Uma enorme e sub-estimulada fatia da população portuguesa agradece-vos.

Cordialmente,

Renato Rocha


http://creativewritingprompts.com/

terça-feira, 9 de agosto de 2011

O Trajectória Aleatória foi a Londres

Na sequência da onda de violência na cidade inglesa, o enviado especial do Trajectória Aleatória foi entrevistar alguns dos manifestantes e tentar perceber que ideias defendem, que princípios os guiam, que ideologias os unem. 


- Senhor Manifestante, boa tarde.
- Boa tarde.
- Explique-me o que está a fazer.
- Estou a partir uma montra com um pé de cabra.
- Ah, muito bem. Por alguma razão em especial?
- Sim. O actual governo é responsável por coisas que me prejudicam.
- E de que forma é que partir uma montra transmite essa ideia?
- Vivemos numa sociedade livre. Ou tu és um daqueles que não concorda comigo?
- Bem...
- Olha que estou com um pé de cabra na mão.

- Senhor Manifestante, como vai?
- Mal.
- Conte-nos o que se passou.
- Eu estava inocentemente a mostrar o dedinho a um polícia, a chamar-lhe nomes e a evitar que ele fosse ali e prendesse os meus colegas enquanto eles se manifestavam à pedrada. De repente, veio um polícia daqueles grandes, fortes e maus, e partiu-me uma unha. Isto é claramente um caso de abuso de poder, habitual na sociedade capitalista e assim onde vivemos.
- Sendo assim o que vai fazer?
- Olhe, para lhe ser sincero acho que o melhor a fazer é pegar fogo a um automóvel.
- E que culpa tem o dono do automóvel?
- Nenhuma, a culpa é do poder instituído e dos governantes. Por isso mesmo é que queimo um carro. Bolas, você também não percebe nada.

- Senhor Manifestante, posso interrompê-lo?
- Agora não me dá muito jeito, estou a tentar arranjar este plasma da prateleira da loja.
- Quais as suas reivindicações?
- Acho que os plamas deviam estar mal presos às prateleiras das lojas.
- Sim, e quanto à política social deste Governo?
- Penso que é má. Eu estou a roubar este plasma para dar de comer aos meus filhos.
- Ah, os seus filhos comem plasmas?

Depois de uma forte agressão por parte de um dos manifestantes que lutam por melhor segurança e paz social para todos, o enviado especial do Trajectória Aleatória prepara-se para regressar a Portugal e ao conforto do seu lar. 

domingo, 7 de agosto de 2011

O Trajectória Aleatória foi à praia

O Trajectória Aleatória não queria ficar atrás de todos os canais de televisão que, neste Agosto cheio de acontecimentos, dedicam grande parte do seu tempo a noticiar acontecimentos de importância nacional como “Está a chover”, “Já está sol outra vez”, ou “Ainda não choveu mas vai chover se calhar amanhã”. O Autor, na tradição dos repórteres de Verão, foi para a praia entrevistar alguns Populares e saber as suas opiniões sobre os últimos desenvolvimentos no estado da “metrologia” e da “metriologia”

- Senhor Popular, muito boa tarde.
- Boa tarde.
- Está calor, não está?
- Está sim.
- Qual a sua opinião sobre a temperatura da água?
- Está assim-assim.
- Qual a sua opinião sobre o estado do tempo, apesar da crise?
- Acho bem.
- E tu, pequenino popular?
- Eu gosto pruque posso brincar na praia.

- Outro Senhor Popular, qual a sua opinião sobre o boletim metrológico para amanhã?
- Olhe, eu sou da opinião de que derivado ao facto de haverem previsões de chuva não vou vir amanhã para aqui à praia.
- E sobre a crise?
- Acho mal.

- Um Terceiro Senhor Popular. Boa tarde. Como vê o facto de esta manhã chovido?
- Olhe. Eu acordei e estava a chover. Tomei o pequeno almoço e estava a chover. Meti-me na camionete e estava a chover. Saí da camionete e estava a chover. Cheguei à praia e estava a chover. Estendi a toalha e estava a chover, e disse para a Maria: Não há direito. Se eu soubesse que ia chover não tinha vindo para a praia. É o país que temos, não há nada a fazer. Agora prontos. Já aqui estou.

- Um Quarto Senhor Popular: De que forma está a crise a afectar a sua ida à praia?
- De maneira nenhuma, venho a pé, moro mesmo ali do outro lado do pinhal.
- E não sente a crise nas suas férias?
- Não sou gastador.
- Mas com certeza tem alguma coisa na sua vida que tenha sido prejudicada por causa da crise.
- Assim de repente...
- Pense lá bem.
- Olhe, se calhar como menos gelados.
- Sente-se injustiçado, portanto.
- Sim, se calhar é isso.
- Portanto, acha mal.
- Sim, acho mal, pronto.

- Um Quinto Senhor Popular. Diga-me, está revoltado com a crise...
- Não é com a crise, é com o Gueverno.
- Por causa da crise...
- Não. Há já mais de trinta anos que venho aqui para a Arrábida, chego cá este ano e não há areia. Só pedragulhos destes grandes. Agora uma pessoa para ir banhar-se tem de andar por cima dos pedragulhos.
- E ir para outra praia?
- Não posso, por causa da crise, e porque é sabido que de férias uma pessoa tem direito a vir à praia e estar sem se mexer. O que me choca é que o Gueverno fala muito de turismo, fala muito de investimentos e de coisas mas quando é para fazer ninguém faz nada. Onde foi parar a areia da Arrábida? Foi com certeza culpa do Gueverno.
- E da crise.
- Sim, e da crise também, mas principalmente do Gueverno. Eu e sete amigos meus vamo-nos manifestar. Não há direito porque no fundo uma pessoa vem à praia é para se divertir, não é para andar em cima de pedragulhos.

- Um Sexto Senhor Popular. Boa tarde.
- Boa tarde.
- Veio à praia, estou a ver.
- Sim.
- E está a gostar?
- Estou.
- Qual a sua opinião sobre a praia?
- Está calôri.
- E mais?
- E ontem choveu.
- Qual a sua opinião sobre as previsões metrológicas que indicam a possibilidade de aguaceiros para amanhã?
- Acho mal. Mas os senhores metrilogistas às vezes enganam-se. Mas se calhar amanhã não se enganam. Não sei bem.
- Amanhã já não vem à praia?
- Pois se calhar não.
- E o que pensa disso?
- Acho mal.
- E o que pensa do tempo para hoje?
- Acho bem.
- E o que pensa da crise?
- Acho mal.
- E das férias?
- Acho bem.
- E do sol?
- Acho bem, também.
- E a água?
- Tá fria.
- E o que pensa disso?
- Acho mal.
- E se a água estivesse quentinha?
- Aí era melhor.
- Muito obrigado. 

domingo, 24 de julho de 2011

A definição de redundância


Duas videntes foram acusadas de burla.


Pergunto-me qual será a diferença entre estas e todas as outras videntes. Suponho que a Polícia Judiciária concluiu que, enquanto todas as outras videntes do país têm mesmo poderes sobrenaturais e levam dinheiro às pessoas de forma legítima, estas duas era simplesmente fraudulentas; gostaria era de saber qual a metodologia utilizada. 

Para terminar, porque vem a propósito: qual será, afinal, a importância do espírito crítico na sociedade contemporânea? Nenhuma, está claro. Absolutamente nenhuma. 

domingo, 12 de junho de 2011

Sardet no coração


Estudemos com cuidado aquela que considero ser, na minha modesta opinião, a pior música portuguesa alguma vez feita (e incluo Quim Barreiros e Toy nesta classificação, apesar de não merecerem). Trata-se do último sucesso desse Tony Carreira da classe média alta chamado André Sardet, mais conhecido por ser o autor de outras dezenas de baladas igualmente responsáveis pelo declínio do bom gosto musical português.
A música é a típica ladainha repetitiva e aborrecida ao piano, semelhante às lamúrias adolescentes que um jovem pianista poderia compor para a sua amada; e a letra não destoa. Veja-se a beleza desta estrofe:
Todo o beijo que é roubado,
Tem mil anos de perdão,
Só se for guardado junto ao coração
Sardet é obviamente a autoridade máxima em piropos românticos. “Envolver-te num abraço / Ver o dia madrugar” é igualmente sofisticado; e para tornar tudo mais internacional, Sardet utiliza “dié”, que é uma expressão que todos conhecemos e que se traduz por “fim”. Como no cinema. Percebem? Sim, é sofisticado demais. Por isso, Sardet ajuda o ouvinte:
Faço uma cena
Como vi lá no cinema
Não se trata de nada específico, é apenas “uma cena”. Reparem como nos desperta a imaginação. O que será? Um anel? Um ramo de flores? Um estalo? E é lá no cinema, e não no cinema simplesmente. Um cinema abstracto seria demais, até porque tornaria o verso coxo e sem ritmo. Mas tal é compreensível. Compor uma música de tamanha complexidade e originalidade já é obra, quanto mais querer que a letra nela se encaixe! Talvez por isso Sardet conceda a si próprio uma criativa utilização da língua portuguesa. Veja-se como pronuncia “esperança” (“xprança”), logo nos primeiros segundos de música. Ou mesmo a “chávna de café” de onde Sardet bebe o amor de não sei quem.
Aliás, toda a narrativa tem um carácter épico. Sardet deseja entrar pela casa de uma pessoa para que esta “lhe diga como é”, e ao mesmo tempo “dizer tudo o que sente”. Desta vez é mesmo a sério, o que significa que já lhe mentiu antes e sabe que merece ouvir “como é”. No entanto, e apesar de mentiroso, Sardet sente-se no direito de lhe beber o amor (vão só tomar café, eu sei, mas é mais romântico do que isso. Se uma gaja prepara uma caneca de café ao gajo que lhe mentiu anteriormente e agora lhe entra pela casa adentro é porque lhe está a dar o seu amor. Até aí percebo) e de dançar com ela na varanda. E além de lhe sujar uma caneca, vai fazer “uma cena” e roubar-lhe um beijo, o que visto no contexto pode ser um eufemismo para uma violação.
Roubo-te um beijo,
Depois de roubado é meu
A falácia lógica é secundária quando falamos de algo tão belo (veja-se a mesma lógica aplicada a “Roubo-te a carteira / depois de roubada é minha”). Não se trata de um beijo qualquer. Ele vai guardá-lo “junto ao coração”, portanto, algures na cavidade torácica, e isso significa que o gajo gosta mesmo da sua gaja. É, digamos, uma forma de lhe agradecer o amor que bebeu da chávena. Sim, poderá sempre parecer mais uma daquelas ladainhas asquerosas que os cantores românticos compõem para delírio das fãs, mas isso seria desrespeitar o trabalho de Sardet. E isso não pode ser. Tratar assim um homem com tanto amor para dar não é só cruel, mas também exagerado. Em tenho xprança que Sardet, um dia, seja capaz de compor algo decente.
O que dizer de alguém que paga as suas contas com tamanho assassinato ao bom gosto? Nada. Fará sucesso, como todos os maus letristas e músicos portugueses. As pessoas não gostam de boas letras, porque essas exigem possuir neurónios para as analisar e apreciar. Preferem a ordenação desprezível e quase aleatória de “beijo”, “amor”, “quero-te não sei quantas vezes ao dia” e outras enormes inovações no panorama romântico mundial.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Este post é um milagre

Era uma vez um grupo de pessoas totalmente objectivas que se reuniram à volta de uma construção gigantesca e desnecessária para mostrar o quanto são bons seguidores.

Eis senão quando aparece um arco-íris no céu.

O grupo de pessoas ficou completamente louco. Aquele fenómeno absolutamente natural era, sem dúvida nenhuma, a demonstração empírica da existência da sua interpretação pessoal de um pai celestial.

Mas não gozemos com coisas sérias. Esses seguidores têm todo o direito às suas certezas profundas. Quem serei eu para criticar alguém que cai de joelhos a chorar quando vê um arco-íris no céu?

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Vou tentar explicar de forma a que consigam entender:

Caros senhores dos transportes:

As greves não resultam.

Ok?

Agora parem de fazer de propósito para tramar a vida de toda a gente que quer ir trabalhar.

Cumprimentos

quinta-feira, 10 de março de 2011

Jovem sofredor

O Jovem levantou-se da cama, esperguiçou-se e coçou o rabo. Saiu do quarto e foi até à cozinha, onde o pai lia o jornal sobre um prato com torradas e a mãe, de roupão, fazia café.

- ‘Dia – disse o Jovem.

- Bom dia, filho.

- Sabem, tomei uma decisão.

O pai observou-o do topo da secção de desporto e a mãe pousou a chávena de café sobre a bancada.

- Quero um emprego.

O pai e a mãe entreolharam-se.

- Eu acho óptimo, querido – disse a mãe.

- Sinto que está na altura de a sociedade me dar valor. Sabem, porque sou especial – o jovem puxou para si uma torrada e mordeu-a – E vocês sabem como isso é verdade.

- Claro que sabemos, filho – disse a mãe.

- Aliás, eu penso que já não era sem tempo – comentou o pai – Desculpa, mas é verdade.

- Tu sabes perfeitamente que eu estava ali a qualificar-me – disse o Jovem – Isso dá trabalho.

- Claro que sim, claro que sim – disse a mãe, bocejando – Desculpa, querido, mas tenho de ir trabalhar. Ficas bem?

- Podes dar-me doce?

A mãe tirou um frasco de doce do frigorífico e estendeu-o ao filho.

- Também vou – disse o pai, dobrando o jornal e limpando-se ao guardanapo.

Os pais saíram de casa e o Jovem terminou calmamente a sua torrada. Depois foi para o quarto observar o seu diploma, um papel lindíssimo com um selo que reflectia a luz do candeeiro. Depois foi um pouco para o Facebook, comentar com os colegas a sua complicada situação. Depois vestiu-se, agarrou no megafone, e reviu os seus gritos de ordem para a manifestação dessa tarde.

Não ia parar de se esforçar para sair da sua situação precária. Nunca desistiria. Até o meterem a trabalhar em alguma empresa, onde lhe dessem festinhas no cabelo e lhe oferecessem doces e elogios, nunca desistiria. Respirou fundo e saiu de casa, preparado para outro dia no mundo real.

sábado, 25 de dezembro de 2010

A defesa da privacidade pública

Há duas coisas que o típico português aprecia e defende acima de tudo o resto: o direito à mais obsessiva privacidade e as modernices inúteis. Numa conjugação destes dois gostos muito populares, a Administração da minha escola decidiu disponibilizar as notas do 1º Período de uma forma original.
Avisos:
Classificações do 1º Período
Aviso os alunos e seus encarregados de educação que as classificações do 1º período se encontram afixadas em pauta nas vitrinas disponíveis na escola e também publicitadas no GIAE online.

O director, em 21.12.2010
O GIAE é a sigla complicada que define um site onde os alunos vêem as suas faltas e notas, o qual só pode ser acedido por uma password que os directores de turma devem dar aos alunos. A razão parece simples: promover a privacidade do aluno, evitando que as outras pessoas vejam as suas notas.
O que é coerente com o facto de essas mesmas notas estarem disponíveis publicamente nas vitrinas da escola; assim, quando algum espião internacional quiser destruir a minha liberdade e privacidade individuais ao analisar os meus resultados escolares, só terá de se dirigir à própria escola que, com passwords, senhas de acesso e GIAES online, só dificulta a vida do próprio aluno na sua luta para preservar o seu direito à privacidade.
Safa-se o espião internacional mas não o aluno que, sem pass (porque nunca a recebeu, porque a perdeu, porque não a tem naquele momento) não tem forma de saber que notas tirou no 1º Período; a não ser que queira interromper as férias com uma visita física à escola que, com certeza, estará fechada durante alguns dias do Natal e do Ano Novo.
Resta-me esperar pelo primeiro dia de aulas para ver as minhas notas, e, com cuidado, evitar olhar para o resto da pauta, onde figuraram as notas dos meus colegas. A última coisa que quero é sodomizar-lhes a privacidade.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Eu faço greve porque posso, e tu fazes greve porque eu quero fazer greve. Vivam os direitos dos trabalhadores!

E aqui estou, em casa, quando devia estar na escola a trabalhar. A escola está aberta (penso eu), mas os meus professores avisaram logo que iam fazer greve e que por isso não teríamos aulas. Estão no seu direito. O seu direito inclui, é lógico, prejudicar o calendário das aulas e os trabalhos que estamos a desenvolver. É menos uma aula que eu e os meus colegas temos para terminar trabalhos que por si só já estão atrasados. Mas é um direito, e acabou-se. Eu percebo perfeitamente que o seu direito de se baldar às aulas e ficar em casa a descansar o intelecto está muito acima na sua lista de prioridades da sua obrigação primordial, que é educar-nos. E ainda bem que temos professores que lutam pelos seus direitos. Eu não quero professores que me dêem aulas, quero é pessoas que saibam reclamar de uma forma que mais ninguém senão eles e os alunos, os prejudicados, sentirão.

Não serei o único. Há muita gente que, graças ao altruísmo de quem faz greve, não pode apanhar o comboio, o metro ou o autocarro para ir trabalhar. O país pagará, em milhões, a imobilização de milhares de pessoas. Mas os sindicatos não querem saber.

Isto percebe-se, claro, nem que seja por um facto inegável: as greves resultam. Não só resultam, como foi graças a greves como esta que as grandes mudanças de política na História foram conseguidas. Veja-se a Revolução Francesa, ou o 25 de Abril. É claríssimo que, amanhã, todos os governantes e partidos da oposição se vergarão à vontade popular. “Caramba”, dirão eles, “Os trabalhadores têm razão. Vou agora comover-me durante alguns minutos, chorar, pedir desculpas públicas, e depois reverter todas as decisões tomadas neste Orçamento de Estado. E à tardinha vou para a rua, distribuir dinheiro”.

.

sábado, 7 de agosto de 2010

Porque rir com a imbecilidade alheia dá gosto

Por causa do último post que aqui publiquei, fui visitar o site oficial do Movimento Mudasti no Dicionário. O que lá encontrei não pode ser descrito por palavras; pelo menos eu não consigo. É um misto de vergonha em ser ser humano, pena, e gargalhadas ocasionais.
No site em questão, dizem-nos que a única razão porque Mudasti não está no dicionário é “falta de espaço”, o que por si só é um esplêndido argumento (todos sabemos que os livros têm um limite de páginas). O site encoraja os “militantes” a sugerir palavras que estejam no dicionário mas que não devessem estar, e pede-lhes para justificar a remoção da palavra do dicionário. Como qualquer actividade interactiva e aberta ao público, seria de esperar uma afluência bem marcada de imbecis; mas nada me preparou para o grau de inteligência que vim a encontrar. É possível que muitos destes exemplos tenham sido ali colocados a gozar, mas duvido.
À esquerda têm marcada a palavra em causa, e na janelinha em fundo preto o nome do “militante”, a definição original da palavra no dicionário e a razão porque a palavra deveria ser abandonada. Coleccionei os melhores exemplos para vossa diversão, divididos em categorias que me pareceram oportunas.
(desculpem a forma pouco pratica de apresentar as imagens, mas é o que há)

Categoria 1 | Pessoas que nem sequer sabem o que é, como funciona ou para que serve um dicionário








Categoria 2 | Pessoas cujas capacidades cognitivas foram com certeza erradicadas permanentemente num acidente









Categoria 3 | Pessoas sensíveis






Categoria 4 | Lógica implacável











.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Uma homenagem a sério

O Facebook veio simplificar uma série de coisas que já toda a gente sabe quais são; mas uma dessas simplificações quase nunca recebe comentários.

Com o Facebook, tornou-se extremamente simples fazer as coisas que antes exigiam qualquer tipo de trabalho ou esforço, como dar os parabéns à família e amigos (é só deixar um comentário no “mural”) ou, sei lá, homenagear alguém. Graças ao Facebook, tudo o que temos de fazer é clicar num botão que diz “Join group” ou “Like” e pronto, está homenageado. O nosso apoio, de alguma forma, fica registado; apesar de não haver, do ponto de vista real, qualquer homenagem ou apoio material ou palpável.

No grupo em questão, uma comentadora diz até, cito,

Tive o previlégio de ter sido amiga virtual de ANTÓNIO FEIO,um homem que lutou com todas as suas forças até ao fim,o meu pesar para toda a sua familia e amigos.BRAVO ANTÓNIO!NUNCA SERÁS ESQUECIDO,DESCANSA EM PAZ.

Reparem nas maiúsculas, que servem, em linguagem de Internet, para mostrar como a pessoa está mesmo muito emocionada e a falar a sério. O “privilégio” de ser amiga virtual. Lindo!

Quando uma demonstração de afecto humano e de homenagem sentida é um clique de um botão, não há forma de defender seriamente que as redes sociais aproximam as pessoas; pelo contrário, plastificam o contacto humano.

.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Os critérios utilizados no programa “Achas que Sabes Danças?” explicados com uma analogia

No concurso “Achas que sabes diagnosticar?”, 20 médicos competem pelo lugar de melhor médico do país. Entre eles contam-se cardiologistas, pediatras, oncologistas ou dermatologistas. As provas incluem todo o tipo de especialidades de clínica geral, onde os médicos devem demonstrar enormes capacidades de diagnóstico em todos os campos da medicina.
O júri, por sua vez, é composto apenas por dois cardiologistas e um gajo que encontraram no parque de estacionamento à procura de emprego. Sempre que as provas incluem tarefas de cardiologia o júri elogia a técnica, os conhecimentos teóricos, a execução e a evolução ocorrida.

PARTICIPANTE: Chamo-me Maria, acabei de fazer um by-pass a este paciente e ele sobreviveu, mas encontra-se ainda em observação com risco de infecções pós-operatórias.
JÚRI CARDIOLOGISTA: Acho que deves melhorar a técnica, não está perfeita. Por mim, não estás preparada.
GAJO QUE ANDAVA A VAGUEAR NO PARQUE DE ESTACIONAMENTO E QUE FOI CONVIDADO PARA SER JÚRI À FALTA DE MELHOR: Acho que nasceste para ser médica, parabéns. Podes inclinar-te para eu ver melhor o teu decote, por favor?
JÚRI CARDIOLOGISTA #2: Lamento, mas por mim também ficas por aqui. Não seguiste a metodologia correcta, não utilizaste a técnica de sucção que devias e o teu diagnóstico inicial teve uma vírgula fora do sítio. Não poderás continuar connosco.
No entanto, quando as provas incluem desafios em campos diferentes, o júri retrai-se e utiliza critérios inovadores.

PARTICIPANTE: O meu nome é Sofia, sou cardiologista mas acabei de fazer uma operação ao pé de um paciente. O paciente ficou coxo, esqueci-me de duas compressas dentro do calcanhar e urinei para dentro da ferida ainda por sarar.
APRESENTADOR: Será que a Sofia passa à próxima fase? Júri, o que têm a dizer?
JÚRI CARDIOLOGISTA: (chora de emoção descabida) Foi uma operação lindíssima… Desculpa… mas a forma como expressaste o médico que há em ti… (desmancha-se em lágrimas)
GAJO QUE ANDAVA A VAGUEAR NO PARQUE DE ESTACIONAMENTO E QUE FOI CONVIDADO PARA SER JÚRI À FALTA DE MELHOR: Gostava de ser operado por ti no íntimo da minha casa.
JÚRI CARDIOLOGISTA #2: Adoro a forma como agarras no bisturi, acho que ficas muito bem com essa bata vestida e tenho de confessar que também me atrai o desodorizante que usas. Por mim passas! Estás no top 20 melhores médicos de Portugal!
.

domingo, 31 de janeiro de 2010

A Fada dos Dentes existe, e eu posso prová-lo

Eu sei que pode parecer estranho, mas vou tentar provar-vos que a Fada dos Dentes existe. Não só tenho provas suficientes para o demonstrar, como espero sinceramente que no fim deste post sejam capazes de admitir que a vossa ridícula negação de algo tão óbvio é infundada e ilógica.

Todos nós já experenciámos a Fada dos Dentes, de uma forma pessoal e directa. Em pequenos, quando perdemos os dentes de leite, somos encorajados pelos nossos pais a colocá-los debaixo da nossa almofada porque, dizem os nossos pais, a Fada dos Dentes virá colectar os nossos dentes e trocá-los por prendas ou dinheiro. Aqui está o primeiro argumento para a existência da Fada dos Dentes: porque é que os nossos pais nos iriam mentir? Teriam razões para o fazer? Os nossos pais gostam de nós, preocupam-se connosco e querem proteger-nos. Porquê, então, alimentar em nós uma crença fútil e infundada? Estão a dizer que todos os pais de todas as crianças do mundo são mentirosos cruéis?

Quando finalmente colocamos um dente debaixo da almofada pela primeira vez e adormecemos calmamente, temos algum medo do que possa acontecer. Como será que a Fada dos Dentes fará a troca? Poderemos senti-la? A verdade é que (e aqui entra a segunda prova da sua existência) a Fada dos Dentes troca o nosso dente (do qual ela fará um fantástico uso, e por isso nos recompensa) por dinheiro ou por uma prenda de forma tão subtil e mágica que não o sentimos durante a noite, muito menos podemos explicar como o fez. Não há nada no nosso quarto ou na nossa casa que possa alguma vez facilitar a entrada de um ser mágico sem ser visto ou ouvido; isto porque, obviamente, a Fada dos Dentes está fora das normais formalidades físicas em que vivemos. Para a Fada dos Dentes não há portas fechadas nem trancas nem escadas a ranger: há simplesmente o carinho por nós.

Porém, reparem, ela podia simplesmente levar-nos o dente e ignorar-nos completamente; no entanto, ela ama-nos de uma forma tão fantástica que está disposta a recompensar-nos o gesto de lhe dar o nosso dente. Isto demonstra claramente que a Fada dos Dentes nos ama; porquê, não-crentes, ignorar um amor assim? Estarão zangados com a Fada dos Dentes? Terá havido uma ocasião nas vossas vidas em que não receberam, em troca do vosso dentinho, o presente desejado? Porquê negar assim a óbvia existência de um ser que vos adora? Como acham que a Fada dos Dentes se sentirá ao saber disto?

Portanto, vocês acordam de manhã e o dente já lá não está; melhor, em vez dele, está uma nota, uma prenda, ou algo que vos traz alegria. Esta é a melhor demonstração física do poder e influência da Fada dos Dentes, e que não pode ser negada. Os não-crentes não podem provar que a Fada dos Dentes não fez esta maravilhosa troca, da mesma forma que não podem provar que ela não existe. Porquê inventar outra explicação quando a verdade é tão bela? A Fada dos Dentes vem, leva-nos o dente e deixa-nos uma prenda. Que mal há nisso?

Os não-crentes acreditam não na Fada dos Dentes, mas sim que são os nossos pais quem faz a troca do dente pelo presente; apesar, claro, de todas as evidências já apresentadas. Tentam ainda revelar a minha suposta "falácia" com a seguinte sugestão: Se estás tão certo que a Fada dos Dentes existe, então porque não testá-la? Sugerem eles colocar uma criança a dormir num quarto controlado, em que ninguém pode entrar ou sair, e repleto de câmaras de vigilância nocturna e outros sistemas de controlo de movimento. Pretendem eles, com esta ridícula parafernália supostamente científica, mostrar que se nenhum pai entrar no quarto da criança para fazer a troca, a criança acordará dali a umas horas com o dente debaixo da almofada. Isto, dizem eles, prova que a Fada dos Dentes não existe, e que são os pais os responsáveis pela troca!

Que ridícula suposição! Mesmo que esta experiência seja levada a cabo (e já foi, por uma equipa de mal intencionados cientistas que dedicam as suas carreiras a destruir os sonhos e esperanças a todas as crianças do mundo) e mesmo que os resultados apontem para que 1) sempre que ninguém entrar no quarto para realizar a troca essa mesma troca não acontece, e 2) não há nenhuma actividade registada no quarto em todos os casos em que a troca não é efectuada com sucesso e em que nenhum adulto entra no quarto, isto NÃO prova a não existência da Fada dos Dentes!

Senão vejamos: Nos casos em que nenhum adulto entrou no quarto para trocar o dente pela prenda, os não-crentes estão à espera de ver as suas câmaras e outros aparatos electrónicos captar a mágica presença da Fada dos Dentes. Enganam-se! Porque iria a Fada dos Dentes mostrar-se de forma tão flagrante e gratuita, só para que uma elite de intelectuais fique satisfeita? A Fada dos Dentes tem muitos outros dentinhos para coleccionar, vindos de pessoas honestas e que não só acreditam nela, como não duvidam da sua existência. A Fada dos Dentes prefere estar na companhia de quem a ame e queira ajudar, não num laboratório a provar a sua existência para a satisfação de alguns que não acreditam porque não querem!

Os não-crentes argumentam ainda que é necessário um adulto entrar no quarto e efectuar a troca para que a criança, de manhã, acorde sem o dentinho debaixo da almofada e com a prenda ao seu lado; e que isto, de alguma forma, prova que são os pais os responsáveis únicos pela troca e não a Fada dos Dentes! O problema que os não-crentes, na sua mentalidade fechada e reduzida, não conseguem resolver, é o seguinte: os pais das crianças são o mecanismo que a Fada dos Dentes utiliza para efectuar as trocas! Não interessa se podemos provar que há alguma coisa física, material ou natural a provocar um fenómeno: esse processo físico é a forma que a Fada dos Dentes utiliza para comunicar com o mundo material em que nós, limitados humanos, vivemos!

Não só cobri todas as provas empíricas e científicas que comprovam a existência da Fada dos Dentes, como provei conclusivamente que os argumentos dos não-crentes, se bem que aparentemente fundamentados, não passam de acusações e especulações. Teorias! Porque não poderão os não-crentes simplesmente aceitar a Fada dos Dentes, em toda a sua beleza e majestade, e parar de tentar provar a sua não existência? Porquê estragar a infância a tantas crianças só porque VOCÊS não conseguem lidar com a verdade?

.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Mulher descobre buço depois de tomar a Vacina da Gripe A

Uma mulher em Azeitão deu por si com um enorme buço apenas dois dias depois de ter tomado a vacina da gripe A.

A mulher, de 55 anos, foi vacinada na segunda-feira de manhã, no centro de saúde da sua região. Apenas dois dias depois, na última quarta, foi vista na mercearia da região com um enorme buço, o qual nunca ninguém tinha reparado.

“Não é normal”, disse uma vizinha, que deseja permanecer anónima “Estas coisas das vacinas são tudo uma conspiração globalizada dos governantes e dos farmacêuticos para destruir as populações e controlar a natalidade. Eu sei, que o meu primo é farmacêutico e ele sabe dessas coisas “

A mulher, que é proprietária de um aviário e vê o “Serviço de Urgência” às segundas-feiras, garante que a única causa médica que pode explicar o seu buço é a vacina da gripe A.

Entretanto, numa notícia em nada relacionada, a comunidade de cientistas e médicos a nível mundial garante a segurança da vacina da gripe A, depois de milhares de vacinações em todo o mundo terem decorrido com normalidade.

.

sábado, 14 de novembro de 2009

Portugal, Futebol e uma molécula qualquer esquisita

Hoje Portugal joga com a Bósnia, num dos maiores acontecimentos nacionais da semana. Entretanto, nos confins dos noticiários e jornais online, está a notícia de que três investigadores portugueses foram premiados pela sua investigação no campo da biologia molecular.
Com certeza que neste momento está toda a gente a ver o jogo da selecção, e por isso demasiado ocupados para reparar em tais trivialidades. Quando vos passar o patriotismo vão espreitar a tal notícia.


Uma equipa de cientistas portugueses foi premiada com o Prémio Grunenthal Dor pela descoberta de um fármaco com capacidades analgésicas que pode vir a ser usado no combate à dor e na terapia de doenças neuro-degenerativas, como a doença de Alzheimer e a doença de Parkinson.


Nada de especial, até aqui. Não se percebe até que ponto esta coisa de combater as doenças neuro-degenerativas se possa sequer comparar com o Cristiano Ronaldo ter o joelho entrevado. Continua a notícia, explicando na prática o que isto tudo significa significa:


Os cientistas basearam-se numa molécula com propriedades analgésicas já conhecidas, a quiotorfina. Contudo (…) esta era incapaz de chegar ao cérebro, o que impossibilitava a sua utilização como analgésico. A fim de contornar este impedimento, a equipa de investigadores desenhou uma nova molécula derivada da quiotorfina que mantém as propriedades analgésicas e tem capacidade de atravessar membranas biológicas (…) A patente do medicamento já foi registada e, além disso, já há um financiamento europeu para o seu desenvolvimento industrial.


Enquanto nós, pessoas sérias e patrióticas, nos perdemos em acutilantes elogios e longos tempos de antena dedicados aos nossos heróis nacionais, esses grandes jogadores de fubetol, andam por aí estes tipos a brincar aos médicos, e que lá se vão lembrando de umas coisas, patenteando medicamentos absolutamente inúteis e gastando o dinheiro europeu (em estádios?) em trivialidades, como o combate às doenças degenerativas. Temos cientistas portugueses a redesenhar moléculas para o bem da população, mas porque é que isto me deveria interessar mais do que as fintas e os penaltis?

Chega de sarcasmos. Faço questão de deixar aqui esta mensagem de parabéns aos cientistas em questão, que parecendo que não fizeram mais por todos nós com uma molécula do que o Cristiano Ronaldo alguma vez fará com os seus golos.

Parabéns às televisões, que ignoram acontecimentos como estes; parabéns aos organismos do estado, sempre a apoiar a ignorância científica do povinho que lá vai deixando passar estas coisas. Parabéns a Portugal, se ganhar o jogo. Se não ganhar, parabéns na mesma. O que interessa é o orgulho nacional, não é?

.