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terça-feira, 9 de novembro de 2010

O Papa toca violino

Casamento "natural". O Papa Bento XVI voltou ontem a criticar o casamento entre pessoas do mesmo sexo, defendendo o matrimónio entre homem e mulher como modelo a seguir. "As condições de vida mudaram e com elas avançaram enormemente os progressos técnicos, sociais e culturais. Não podemos contentar-nos com esses progressos. Com eles devem vir sempre os progressos morais, como a atenção, a protecção e a ajuda à família, já que o amor generoso entre um homem e uma mulher é o marco eficaz e o fundamento da vida humana na sua génese, no seu nascimento, no seu crescimento e no seu fim natural"

O Papa confunde “progresso” com “cá para mim o ideal era continuarmos todos a ter leis que defendam a posição retrógada da minha Igreja”. Para o Papa, o progresso ideal é a não-evolução. É a estagnação moral. E pior que tudo, a meu ver, o Papa nem tem a decência de dizer abertamente que é contra o casamento homossexual. Ou contra as famílias monoparentais (releiam a sua declaração e vejam lá se não se enquadra). Em vez disso, o Papa mistura a sua homofobia com um discurso coerente mas fraco, cheio de palavras carinhosas que fazem dele “uma figura bonita”, como muitos fiéis o escrevem. Esses fiéis ou concordam com ele e o escondem também atrás de “o que importa é a esperança que ele traz”, ou são analfabetos.

O Papa confunde também “apoio à natalidade” com “proibição do aborto”. Reparem que o Papa não defende que deve ser obrigatório ter filhos, ou proibido que um casal decida não reproduzir-se. Muito menos defende apoios concretos. O Papa fala apenas do aborto não por uma preocupação genuína com a natalidade, mas sim por causa da carga religiosa que o tema carregar. Neste ponto, o Papa mostra mais uma brutal desonestidade. Ao invés de defender aberta e corajosamente a sua doutrina, mascara-a com falinhas mansas sobre como:

"a natalidade seja dignificada, valorizada e apoiada jurídica, social e legislativamente".

Ouve-se suspiros na multidão. O Papa é tão doce, tão carinhoso!

Falta-lhe a coragem de dizer: “Ouça, vamos lá deixar tudo bem claro. Os ateus são violentos, o aborto é uma abominação perante Deus e os homossexuais, desculpem lá, mas deviam ser impedidos de casar ou, Deus nos livre, tentar criar uma criança”.

Se não percebem qual é o truque por ele usado, pensem no Hitler a dizer algo como:

“O que desejamos é que todos aqueles que pertencem ao mesmo grupo de crenças e características físicas possam, em conjunto, defender os nossos lindos ideais comuns, e assim proteger o que é para nós a mais sagrada das populações: a ariana. Desejamos a protecção nas nossas crianças e um futuro melhor para elas, e apenas isso. E sentimos que é nosso dever perante as gerações futuras defender a todo o custo o seu saudável crescimento num mundo onde possam crescer rodeadas de outras crianças bonitas e limpinhas como elas.”


http://www.ionline.pt/conteudo/87358-espanha-papa-defende-que-o-estado-deve-ajudar-familias-heterossexuais

terça-feira, 29 de junho de 2010

Casamento homossexual: a destruição da sociedade

Nota inicial: Este post pode ofender a sensibilidade de algumas pessoas.

Escrevi aqui há uns dias um post sobre as declarações publicadas no site Portal Evangélico sobre a morte de José Saramago, mas a verdade é que poderia escrever muito mais reflexões como essa porque o site em questão é demasiado estranho para ser deixado em paz. Outro texto recente publicado no Portal dá conta do (música dramática suficientemente cristã) CASAMENTO HOMOSSEXUAL.

Embora seja desde sempre um pilar matricial da civilização judaico-cristã, [o casamento heterossexual] trata-se de uma realidade universal fortemente enraizada em diferentes civilizações, culturas e religiões. Como elementos essenciais, o casamento sempre teve o encontro entre os géneros, numa perspectiva de igualdade e complementaridade, e a criação de uma estrutura estável e saudável para o desenvolvimento físico, emocional e espiritual das crianças. O mesmo tem sido, ao longo da história, e ainda é hoje, o contexto óptimo desse desenvolvimento.

Um desafio aos caros leitores: nomeiem-me um contexto histórico em que o casamento tenha realmente representado “o encontro entre géneros, numa perspectiva de igualdade e complementaridade”. Ou, por outras palavras, encontrem-me por favor um momento na história em que a mulher tenha alguma vez tenha tido, por estar casada com um homem, um estatuto igual ao seu.

E, já que estão a tentar impossibilidades, expliquem-me também porque raio é necessário um casamento especificamente entre duas pessoas de sexo diferente para que haja “uma estrutura estável e saudável para o desenvolvimento físico, emocional e espiritual (espiritual?) da criança”. Com certeza todas as mães e pais solteiros, ou todos os filhos de pais divorciados, ou todos os filhos de pais que não estejam casados, concordarão com o Portal Evangélico: de que outra forma poderemos criar uma criança saudável e feliz? Eu próprio fui criado por pais divorciados; talvez isso explique a falta de “desenvolvimento espiritual” na minha infância e o meu consequente ateísmo rebelde e violento.

A união entre um homem, uma mulher e os seus filhos é a base de uma sociedade equilibrada. Nela a sexualidade é saudável e a intimidade é profunda, porque baseada na diferença e na complementaridade.

Porque uma sexualidade entre dois homens e duas mulheres é simplesmente impossível de imaginar. Aliás, nunca poderá ser saudável! (o que quer que isso signifique; para o Portal Evangélico, “saudável” parece ser sinónimo de “nada de coisas que a nós nos pareçam esquisitas”). E, pela mesma ordem de ideias, toda a gente sabe que um casal de homossexuais é absolutamente incapaz de qualquer tipo de intimidade que chegue sequer aos calcanhares da íntima relação entre um bom homem e uma boa mulher cristãos. Mas já que falamos da muitíssimo óbvia superioridade do casamento heterossexual, porque será ele tão importante? Alguma ideia?

Quando essa união (casamento heterossexual) falha – e infelizmente falha muitas vezes – toda a sociedade paga um elevado preço, em depressões, violência doméstica, suicídios, pobreza, delinquência juvenil, insucesso e abandono escolar, abuso sexual de menores, criminalidade, etc.

Tirem alguns momentos para controlar as gargalhadas, se precisarem. Então subitamente todos os problemas do planeta, desde a pobreza até à violência doméstica, delinquência juvenil e criminalidade generalizada, têm finalmente uma explicação: o divórcio! Os leitores que sejam um pouco mais inteligentes que o Portal Evangélico poderão estar a perguntar-se, “Mas espera, mesmo que o fim de um casamento tradicional levasse à completa destruição da sociedade organizada, o que raio é que isso tem que ver com o casamento homossexual?”. O Portal Evangélico não revela essa importante relação, por estranho que pareça; muito menos parece ser tão activamente contra o divórcio (que causa tamanhas consequências destrutivas) como é contra o casamento homossexual (que, a julgar pela falta de explicações no Portal, não causa nenhuma).

Outra coisa que o Portal Evangélico também não explica é de que forma o casamento entre os meus dois vizinhos do sexo masculino vem destruir o fundamento básico do casamento da minha mãe e do meu pai, e consequentemente o equilíbrio da nossa família. Se o casamento tradicional é assim tão comichoso e frágil é porque algo de estranho se passa com a vossa estrutura familiar perfeita. Continuemos a nossa viagem pelas estranhas paisagens da aridez intelectual:

Pretende-se afirmar equivalência moral entre o estilo de vida homossexual e o heterossexual monogâmico. Esta mensagem, de fundamento biológico, moral e social mais que duvidoso, é perigosa para um Estado activamente envolvido na educação de crianças e jovens. Ela dá a entender que nada existe de moralmente intocável e indisponível, que tudo é mera construção social e resultado de preferências individuais e colectivas. Ora, um pilar fundamental da teoria moral, política, e jurídica Ocidental é a existência de valores e princípios nucleares, que os Estados, as sociedades e os indivíduos não podem criar nem devem tentar destruir, sob pena de pagarem um elevado preço no processo.

Ok, outro desafio para os leitores: pensem em posições morais, leis ou qualquer tipo de valor que hoje está alterado mas que em tempos foram “valores e princípios nucleares”. Eu fiz a minha lista: escravatura, mutilação genital, falta de direitos das mulheres, casamento ser apenas uma união entre pessoas da mesma raça, inexistência do divórcio, contracepção, educação ou saúde públicas… Acho que podia continuar, mas devem ter percebido a ideia. Se o Portal Evangélico existisse na altura com certeza teria feito um tão volumoso beicinho quando um idiota qualquer tentou alterar as tradições e valores fundamentais da altura, libertando os escravos, ou levando tratamento médico aos mais desfavorecidos. Loucuras modernas, isso sim!

O que o Portal Evangélico não consegue perceber é que a nossa noção de moral vai sendo alterada ao longo dos tempos, desde que começámos a viver em sociedade uns com os outros. Ao longo de milénios, fomos percebendo que regras funcionavam melhor e quais deviam ser abandonadas. Coisas óbvias e “nucleares” como não roubar ou não matar, só são tão óbvias não por serem por si só valores mágicos e insubstituíveis, mas porque têm aplicações práticas no dia-a-dia das pessoas e nos permitem viver melhor. Vamos acrescentando direitos, fazendo limitações aqui e ali, com o objectivo de melhorar a sociedade PARA TODOS. Assim libertámos os escravos negros, demos os mesmos direitos que os homens às mulheres, e assim daremos o casamento aos homossexuais, tudo pela mesma razão: não magoa ninguém, apenas traz mais liberdade e uma vida melhor e mais justa às pessoas envolvidas.

Todo este processo de melhoramento progressivo da sociedade será dificultado enquanto houver dinossauros como vós, sempre a tentar atacar o avanço e a arrastar o país e o mundo para trás. Tudo o que precisavam de fazer era demonstrar de que forma o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a homossexualidade em geral pode realmente destruir a sociedade; e se o conseguissem fazer, seria o primeiro a concordar convosco; mas infelizmente são incapazes de apresentar uma defesa decente da vossa posição, e por isso as pessoas que andam para aqui a tentar melhorar o planeta para o bem de todos vão continuar a dizer-vos adeus a bordo do comboio do progresso. Feliz estadia na Idade Média (e por favor parem de nos tentar arrastar convosco).


( link original: http://www.portalevangelico.pt/noticia.asp?id=3585 )

sábado, 29 de maio de 2010

Como os conservadores sabem o que é realmente importante

As notícias da birra da direita católica começam a aparecer depois de Cavaco Silva ter desapontado meio país (gosto de pensar que não foi a maioria) ao não vetar a lei do casamento homossexual. Aliás, o seu beicinho prolonga-se agora de tal forma que já procuram uma “alternativa” a Cavaco Silva para as próximas eleições presidenciais.

Esqueçam tudo o que o homem fez como Presidente da República nos últimos anos. Quem quererá saber disso? O importante mesmo é manter a homofobia intacta, e não podemos ter um idiota que vai contra as suas convicções católicas infundadas

Normalmente os Presidentes e figuras do Estado perdem eleições quando fazem disparates, ou quando violam direitos humanos; não quando ajudam a implementá-los.

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E na mesma notícia, testemunhamos a idiotice ignorante de D. José Policarpo:

"Sabemos a fragilidade do veto político na nossa actual Constituição, mas ele (Cavaco Silva), pela sua identidade cultural e de católico, precisava de tomar uma posição pessoal. O veto político era a sua afirmação pessoal."

Sim, claro; e exactamente por ser uma afirmação pessoal não tinha nada de acontecer. Desde quando os vetos são decididos pela "posição pessoal" de quem governa? É só este o critério? D. José Policarpo diz isto, claro, porque Cavaco concorda com ele e não é islâmico, ateu, ou simplesmente a favor do casamento homossexual; porque se o fosse, Policarpo com certeza já não estaria à espera de uma "afirmação" pessoal mas sim de um veto fundamentado e imparcial como os vetos devem ser.

Caro D. José Policarpo: há pessoas em Portugal que acham que a "identidade cultural e católica" do Presidente pouco pesa quando comparada com a importância desta legislação; e a propósito, nem toda a gente tem a mesma identidade católica que o Presidente da República. E porque o Presidente é de todos e não só de vós culturalmente católicos, convém se calhar proteger as minorias da vossa tirania ideológica.

Religião: há dois mil anos a dificultar a vida de quem quer levar o mundo para a frente.


(notícia original: http://tv1.rtp.pt/noticias/index.php?t=Direita-procura-candidatura-alternativa-a-Cavaco-Silva.rtp&article=348559&visual=3&layout=10&tm=9 )

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domingo, 23 de maio de 2010

Fechem as vossas inocentes crianças em casa: os gays aproximam-se!

Eu sei, estou desactualizado; mas não tive oportunidade de falar sobre isto antes.

Cavaco Silva promulgou a lei que permite (a enorme perversão moral!!) o casamento entre pessoas do mesmo sexo; mas fê-lo quase a pedir desculpa. O que Cavaco basicamente diz é que não nos podemos distrair com estes assuntos menores, e concentrar as atenções na crise económica; e, a meu ver pior ainda, qualquer coisa como “há momentos em que a responsabilidade ética tem de substituir as convicções pessoais”.

Nop. SEMPRE a responsabilidade ética deve estar acima das convicções pessoais; porque se um Presidente da República tem o poder de, baseando-se numa convicção pessoal infundada, vetar uma lei preparada por uma maioria parlamentar há qualquer coisa errada com o nosso sistema. Se o fizesse, no entanto, uma coisa chamada democracia parlamentar iria corrigir o problema.

Neste caso, a responsabilidade ética era fazer o que Cavaco fez, só que simplesmente por uma questão de justiça e não porque devemos estar ocupados com outras coisas e por isso despachar esta fantochada dos direitos humanos. Cavaco sente-se a representar não todos os portugueses, como é seu dever, mas a representar aqueles que estão muito preocupados com a crise e que por isso lá autorizam as minorias a terem um direito ou outro. Assim casam-se e calam-se.

Começa, portanto, e de forma oficial, a espiral decrescente de imoralidade que irá destruir a sociedade e separar as famílias portuguesas!


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quarta-feira, 31 de março de 2010

A Conspiração Gay lança mais um ataque violento aos pobres e inocentes padres pedófilos

O Bispo de Beja, um pequeno monstrinho chamado António Dantas, acusou os “lobbies anti-igreja” de serem os responsáveis por uma campanha de descredibilização.
"Sabemos que existem vários lobbies, uns ocultos e outros mais claros, que usam a comunicação social porque querem descredibilizar aqueles que lhes fazem sombra", disse, em declarações à agência Lusa.
O bispo de Beja identificou ainda, como um dos "lobbies de poderes anti-igreja", os homossexuais: "Não é o único, mas o lobbie dos gays, apesar de representar uma minoria, tem muita força e não tenta defender a sua causa, apenas denegrir os outros".
Claro, claro; foi a Conspiraçção Gay que colocou todos os miúdos que foram violados nas últimas décadas nas dioceses dos pobres e inocentes padres, para os seduzir e levar para maus caminhos.
O ódio da igreja pelos homossexuais passou de uma simples aversão injustificada para mania da perseguição. Acusar “os lobbies anti-igreja” (quem serão? António Dantas não o revela) e, em específico, os homossexuais, de denegrir a imagem da igreja é irónico, vindo de um representante de uma organização que, durante a discussão sobre o casamento homossexual, tantas vezes declarou que os homossexuais não eram naturais, e que a sua união não merece o mesmo tratamento que qualquer outro casamento. Quem está a denegrir a imagem de quem? A meu ver, é a Igreja se denegriu a sua própria imagem, ao permitir que todos estes abusos fossem abafados e escondidos durante tanto tempo.
Isto, claro, se considerarmos que “descredibilizar” é acusar a Igreja de irresponsabilidade e crime quando milhares de casos aparecem todos os dias, alguns deles, sabe-se, tendo sido desviados cirurgicamente da atenção do mundo exterior.
Não, Senhor Bispo. Ignorando a homofobia e o ódio gratuito que as suas palavras deixam transparecer, quem quer que sejam os lobbies de que fala estão a fazer o seu trabalho; aliás, o trabalho de qualquer pessoa realmente honesta e preocupada com os outros: denunciar e levar à justiça (nã às vossas “terapias”, ou para outras congregações) os responsáveis por tamanhas atrocidades.
"Por isso os católicos portugueses devem preparar-se para acolher com alegria" a visita do Papa Bento XVI, que se desloca a Portugal entre 11 e 14 de maio, "abafando as vozes discordantes e contestatárias com a oração, o canto e a festa".
Não, Senhor Bispo. Os católicos portugueses deviam era parar para pensar por si próprios. Será realmente moral e aceitável receber com honras e bandeirinhas o representante de uma instituição com os pés tão metidos na poça? Será aceitável receber com tamanha pompa e circunstância um homem que, é sabido, esteve pessoalmente envolvido em ocultar padres pedófilos?
Suponho que abafar as vozes discordantes sem as ouvir ou tentar compreender é a melhor forma que a Igreja encontrou, desde tempos imemoriais, para lidar com as situações mais bicudas. Acontece que o mundo avançou, as fogueiras já não pegam, e as pessoas começam cada vez mais a ouvir quem discorda de vós religiosos e a desenvolver uma estranha e irritante capacidade: pensamento livre, ao perceber que vocês não têm nem o poder com que modestamente se vestem, muito menos razão para dizer tais barbaridades.
Portanto, a todos os católicos portugueses: “Calem-se, tapem os ouvidos quando alguém vos disser mal do Nosso Santo Padre, e ignorem uma coisa chamada realidade”.

(notícia original em: http://www.destak.pt/artigo/58824 )
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domingo, 21 de fevereiro de 2010

E se Rosa Parks fosse lésbica?

Rosa Parques era uma boa pessoa; não queria chatices nem aborrecimentos. Tinha uma vida pacata. Partilhava a sua casa e a sua vida com Cláudia, sua namorada. Ambas tinham emprego, ambas gostavam uma da outra, e nenhuma se envolvia em escândalos imorais. Os seus amigos gostavam delas, até lhes confiavam os seus animais de estimação. Tinham uma casa pequena, perto do centro da cidade, e eram felizes.

Um dia, Cláudia apareceu em casa com um anel e ajoelhou-se à frente de Rosa Parques. Ela chorou, e disse que sim. Ficaram noivas. A sua união foi motivo de alegria para os amigos e familiares, que viam na sua relação um amor raro e intenso. Cláudia e Rosa Parques prepararam uma pequena festa, organizaram os comes e bebes, e imprimindo convites. Fizeram a lista de convidados, escolheram o local para o copo de água, contactaram um fotógrafo profissional, escolheram os vestidos, reflectiram sobre qual delas levaria o bouquet e decidiram que levariam as duas, cada uma o seu. O grande dia chegou, e Rosa Parques e Cláudia meteram-se no carro e foram à Conservatória Civil.

Quando lá chegaram, perguntaram-lhes o que raio pensavam estar a fazer. Rosa Parques apontou para os seus vestidos, e perguntou se não era óbvio. Pela cara de total incompreensão do segurança, não deveria ser assim tão óbvio. Exigiram falar com o responsável, que dali a vinte minutos chegou e perguntou o que ali se passava. Ao que parece, disse-lhe o segurança, estas duas senhoras querem casar.

- Com quem? - perguntou o responsável.

Rosa Parques e Cláudia deram a mão.

- Estão a brincar! - disse o responsável. Não, não estavam - Não sabem que isso é ilegal?

Algumas das pessoas que estavam na conservatória aproximaram-se, observando a cena. Rosa Parques pronunciou-se. Se era ilegal, era uma injustiça. Quem teria feito essas regras? O que é para uns não deveria ser para os outros?

Um homem com enorme bigode e ar de puritano indignou-se. Chamou-as de radicais e exageradas, e sugeriu-lhes que se mantivessem no seu lugar na sociedade, que assim é que deve ser. Nada de serem ambiciosas; até porque, argumentou, a maioria das pessoas não concordava com elas.

Rosa Parques sorriu-lhe, perguntando se a maioria teria razão. O homem de bigodes respondem que claro que tinha, pois se era a maioria! Rosa Parques sorriu-lhe outra vez, recusando-se a largar o bouquet de flores, e perguntou qual seria o problema de se casar com a pessoa que lhe apetecesse. Que mal viria ao mundo? O homem de bigodes corou, e disse que todos, todos os males viriam ao mundo. Sua radical.

O segurança procurou acalmar os ânimos, sugerindo a Cláudia e Rosa Parques que se retirassem pois estavam a indignar as pessoas e isso é que não poderia ser. Algumas vozes apoiaram o homem de bigodes, e outras resmungaram que não senhora, as duas noivas até tinham uma certa razão.

Gerou-se alguma confusão, enquanto os dois grupos discutiram e trocaram argumentações. Rosa Parques insistiu que se queria casar, e era hoje. Ok? Não, não ok. O grupo liderado pelo homem de bigodes interrompeu-a, declarando que se deles dependesse nada disso iria acontecer. A sociedade estava organizada de determinada forma, em que cada um tem um lugar definido e um papel na sua organização. Mudar isso é trazer o caos, é levantar o ridículo e o inimaginável, é igualar as duas noivas a dois noivos quaisquer! E acrescentaram que, no espírito da boa democradia, eram a maioria, e por isso decidiam que ali não ia haver casamento para ninguém.

O responsável pela conservatória não teve outro remédio senão convidá-las a sair, e Rosa Parques e Cláudia assim o fizeram, garantindo que muito provavelmente aquela luta não ficava por ali e que, mais cedo ou mais tarde, justiça seria feita; isto sob uma pequena salva de palmas daqueles que lhes deram razão. À porta da conservatória, deram um beijo apaixonado, de língua, e o homem de bigodes quase teve um AVC.

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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Demasiado sono para falar daquilo que, apesar do sono, vou falar na mesma

Amanhã há uma impressionante manifestação organizada pela Plataforma Cidadania e Casamento, defendendo a realização de um referendo. Portanto, se forem como todos os homofóbicos que acham que têem o direito de decidir sobre quem casa e não casa no nosso país, participem com os vossos argumentos mal fundamentados.

Deixo-vos AQUI o vídeo publicitário da Plataforma. Este vídeo tem apenas uma coisa positiva, para além de uma enorme aridez argumentativa que chega até a divertir: dura pouquíssimo tempo, e por isso a tortura termina depressa.

Claro que não profetizo nenhuma grande novidade na habitual conduta desta Plataforma e respectivos gnomos-ajudantes. Vamos ouvir mais do mesmo "O Casamento é uma Instituição" e "Eu acho que, portanto". Se, por alguma razão, houver algum tipo de novo e criativo argumento contra o casamento homossexual, estou preparado para ser convencido. Não acredito que tal venha a acontecer, mas mesmo assim.

Logo se verá como irá correr, e comentarei se achar importante e interessante.

Até lá, caros amigos, está na hora do sono merecido e reconfortante. Se não aparecer por aqui durante uns tempos é porque:

1) Aconteceu-me algo horrivelmente incapacitante

2) Tenho demasiadas coisas para fazer

3) Fui raptado pelos temíveis líderes do Lobby Gay, a organização secreta que promove a destruição metódica de todas as gerações futuras e procura mergulhar a Humanidade na mais absoluta orgia de imoralidade

Até outro dia.

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quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Já foram fecundadas hoje?

Eu sei que já falei por duas ocasiões, aqui e aqui, sobre o casamento homossexual; mas esta notícia é simplesmente uma delícia, e deixá-la passar sem comentários seria denotar sinais de, digamos, perturbação psicológica.

Para o médico Gentil Martins, que também é um dos mandatários da Plataforma Cidadania e Casamento, a homossexualidade é, de facto, uma doença. «A Associação Americana de Psiquiatria sempre o considerou e só com a pressão dos lobbies gay é que mudou de posição»

Ao que parece, a Conspiração Gay, que como todos sabemos trabalha incansavelmente para a destruição da Humanidade, anda em Portugal a fazer das suas. Gosto particularmente do apelo à autoridade. Ei, se os Americanos dizem que a homossexualidade é doença, quem somos nós para discordar?

Mas, espera lá… Uma pequena pesquisa revela que…

In 1952, when the American Psychiatric Association published its first Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, homosexuality was included as a disorder. Almost immediately, however, that classification began to be subjected to critical scrutiny in research funded by the National Institute of Mental Health. That study and subsequent research consistently failed to produce any empirical or scientific basis for regarding homosexuality as a disorder or abnormality, rather than a normal and healthy sexual orientation. As results from such research accumulated, professionals in medicine, mental health, and the behavioral and social sciences reached the conclusion that it was inaccurate to classify homosexuality as a mental disorder.

E ainda, do mesmo artigo…

The World Health Organization's ICD-9 (1977) listed homosexuality as a mental illness; it was removed from the ICD-10, endorsed by the Forty-third World Health Assembly on May 17, 1990.

O que significa que a homossexualidade deixou de ser considerada uma doença e depravação há vinte anos. Mas deixemos por momentos o espectacular sentido de actualidade do Dr. Gentil Martins, e concentremo-nos no resto das suas declarações.

«Desde que o mundo é mundo que existem homem e mulher. Se a homossexualidade evoluir acaba a humanidade», frisou, não escondendo a sua posição sobre este tipo de ligação conjugal.

O horror. A tragédia. O caos. Toda a gente entende o peso inequívoco deste argumento. Se todas as pessoas no planeta fossem homossexuais, então a humanidade tem os dias contados!

Isto, claro, se partirmos de dois princípios ridículos. Primeiro, que toda a gente no planeta vai mudar de orientação sexual assim que perceberem que, se forem homossexuais, podem casar. E segundo, está subentendido que homossexuais, por definição, geram mais homossexuais. Afinal a homossexualidade não é só uma depravação mental, é uma doença contagiosa!

Isto é, claramente, ridículo. Pensem em todos os homossexuais nascidos de famílias ditas “tradicionais”, criados por um pai e uma mãe. Obviamente que a grande maioria dos homossexuais nasceram de famílias com casamentos heterossexuais. O que é que isto significa? Que a homossexualidade tem causas naturais, e não é o resultado de um ambiente hostil ou de uma infância rodeada de depravações sexuais? Ou que se trata de uma perigosa doença que afecta inocentes crianças e adolescentes, trazendo consigo a eminente desgraça do mundo?

Por último,

«Não se pode misturar as coisas, pelo que a sociedade tem de escolher a sua cultura. Temos de decidir o que é normal em Portugal, mas, na minha opinião, a pedofilia e a homossexualidade são perturbações psicológicas»

Isto é, simplesmente, nojento. Colocar na mesma frase, e ao mesmo nível, a homossexualidade e a pedofilia, subentendendo uma comparação entre as duas, é o maior acto de ignorância que já ouvi em todo este debate sobre o casamento gay. Não sei se preciso de perder tempo a comparar a atracção sexual por pessoas do mesmo sexo e a violação e abuso de crianças inocentes para mostrar que não são comparáveis em nenhum sentido. Talvez o argumento mais óbvio seja, oh, não sei, a homossexualidade diz respeito apenas a quem é homossexual e em nada prejudica quem os rodeia... Enquanto que a pedofilia define-se pelo abuso sexual de uma criança menor, inocente e indefesa.

Diz ainda o Dr. Gentil Martins:

«Sob ponto de vista psicológico e científico existem órgãos definidos que definem a complementaridade entre homem e mulher e isso que é que faz evoluir a humanidade».

O que é fantástico, porque isto é um argumento contra a homossexualidade. E, também, contra quem é solteiro. E, ainda, contra os casais que estão casados, a aproveitar-se da Instituição do Casamento mas sem ter filhos. E, reparem, contra qualquer outra pessoa que não esteja neste momento a planear deixar descendência. São tudo, obviamente, depravações, uma vez que não têm como objectivo a proliferação do ser humano. Ora imaginem só se toda a gente fosse solteira! Ou se, horror dos horrores, todos casais não quisessem ter filhos!

A única forma de manter alguma coerência nos seus argumentos é esta gente defender a obrigatória fecundação de todas as mulheres em idade fértil em Portugal, uma vez que alguém que não tenha filhos é um risco para a evolução do Homem. Portanto, proponho um referendo que pergunte: “Todas as mulheres do país deveriam ser fecundadas?”; e, em resposta, todos os homens podem responder “Sim”; e se me disserem que os homens não podem decidir sobre o futuro das mulheres, uma vez que é uma decisão que só a elas diz respeito, responderei:

«Não se pode misturar as coisas, pelo que a sociedade tem de escolher a sua cultura. Temos de decidir o que é normal em Portugal (…) Sob ponto de vista psicológico e científico existem órgãos definidos que definem a complementaridade entre homem e mulher e isso que é que faz evoluir a humanidade».

Conseguem ficar de braços cruzados quando aquilo que garante a evolução da Humanidade está constantemente a ser negligenciado por essa gente que tem a mania que tem direitos ou decisões sobre o que faz com a sua liberdade? Pensem nisto, e não se deixem cair em depravações.

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