domingo, 1 de novembro de 2009

O Cereal Killer (Final)

Lá dentro, no gabinete do dentista, um doente estava sentado na cadeira; e o dentista, de bata branca, saltitava à sua volta.

- Ora bolas, ora bolas... Tenho de parar esta hemorragia!- dizia o dentista. Retirou de um saco um rolo de papel de cozinha, e arrancou várias folhas com que encheu a boca do doente. Depois, tirou de uma gaveta uma agulha e uma tesoura.

- Vou fazer-lhe uma costura, para que fique apenas com uma pequenina cicatriz, pode ser?

O doente exclamou qualquer coisa como “Arbgh augh augh!”.

- Depois conversamos, ok?- disse o dentista, a sorrir; reparou que se lhe tinha acabado a linha de costura, olhou em volta para a sala, a cantarolar baixinho para aliviar a tensão, e pousou os olhos nos ténis do doente. Ajoelhou-se, retirou um dos atacadores, prendeu uma das pontas à linha e inclinou-se para cima da boca do doente.

- ARGH! Argh?

- Sim, uma COSTURA!- exclamou o dentista, a agitar a agulha à frente dos olhos do doente.

- Argh argh? Blargh ugh argugh!

- Escusa de estar a falar porque não o entendo!- disse o dentista, e um pequeno repuxo de sangue brotou da boca do doente, encharcando a bata do dentista e atirando-o de encontro a um móvel. Uma caixa de medicamentos caiu de cima do armário e estatelou-se no chão. De cima do armário surgiram gritos de terror e pânico, enquanto outras caixas de medicamentos se aproximavam da borda do armário e olhavam lá para baixo, onde o cadáver da caixa jazia. Uma das caixas começou imediatamente a chorar, e, pelas semelhanças faciais, Jovial concluiu que ela e a falecida eram familiares próximas.

O doente contorcia-se na cadeira, enquanto a hemorragia aumentava. Agora, os esguichos de sangue chegavam à entrada da sala, e por pouco não sujaram o casaco do capitão, que se desviou a tempo. O dentista ergueu-se com dificuldade, exibindo um galo monumental no alto da cabeça.

- Ora bolas!- clamou, e mergulhou a cabeça numa gaveta do armário. De lá tirou uma pequena chapa de alumínio, que se contorcia entre os seus dedos, temendo o seu destino. De seguida, o dentista retirou um maçarico, e aproximou-se do doente, que se tentava levantar da cadeira.

- Relaxe!- colocou a chapa de alumínio, relutantemente, dentro da boca do doente, e com agilidade soldou-a à gengiva, altura em que a hemorragia parou, e o sangue deixou de brotar da boca do doente. Orgulhoso, o dentista colocou o maçarico em cima da mesa dos equipamentos e ajudou o doente a levantar-se.

- Bôssê eimou-me a oca!- dizia o doente, enquanto tirava o seu atacador da agulha do dentista.

- Quê? É normal, sim, é normal nos primeiros dias ficar a falar assim. Ponha gelo de hora a hora e vai ver que isso passa!

O doente saiu do consultório constrangido, aproveitando para se queixar a Jovial e ao capitão de qualquer coisa que eles não conseguiram entender. Depois, foi-se embora, e na recepção recusou-se a pagar a conta. No entanto, o alarme voltou a tocar, e o doente teve de depositar duas notas chorudas em cima do balcão, sem antes ajudar a senhora do cabelo vermelho a recolocar o braço no lugar, que caíra, assustado, com o som do alarme.

- Bom dia! Em que posso ajudá-los? Têm consulta marcada? - perguntou o dentista, enquanto tirava as luvas de látex e as colocava num caixote do lixo. O caixote recebeu-as, mastigou-as, arroto e de seguida encaminhou-se para o W.C.

- Eu sou o capitão das autoridades e este é Jovial Trestonho, detective temporário.

- Como os prazos de validade?- perguntou o dentista.

- Como?

- Os prazos de validade! Dos iogurtes, por exemplo...

- Sim, mais ou menos isso. Estamos aqui para lhe fazer umas perguntas.

- Claro, claro... sou suspeito de algum crime?- perguntou o dentista, subitamente pálido.

- Não, não, claro que não.

O dentista benzeu-se com veemência.

- Precisamos de uma lista de todos os seus pacientes que no último ano o visitaram com cáries ou inflamações por excesso de açúcares.

- Andam à procura de um assassino?

- Sim.

- Uau! Ena, quem sabe eu já tenha tratado um assassino sanguinário!- animava-se o dentista, a procurar qualquer coisa num monte de papéis em cima da sua secretária
- Aqui está a listinha - estendeu ao capitão uma folha de papel com diversos nomes.

- Muito obrigado - disse o capitão- Bom dia!

- Não recebo uma medalha ou assim?

- Uma medalha?

- Por vos ter ajudado numa importante investigação policial!

- As autoridades costumam oferecer senhas de refeição, e não medalhas...- resmungou o capitão. Tirou do bolço um papel amarelo e estendeu-o ao dentista - Quinze por cento de desconto no “Churrascaria do Manel”. Está bem assim?

- Sou vegetariano...- queixou-se o dentista.

- Ora bolas... pronto tome lá!- estendeu-lhe um papelinho de 20 por cento de desconto no “Horta do Manel” e, sem mais demoras, o capitão e Jovial saíram do consultório, cada vez mais perto de apanhar o seu assassino.

- Jovial, meu amigo! O assassino está nestas duas listas! Consigo já cheirar o prestígio, as medalhas de honra, as entrevistas, a fama, os benefícios fiscais…!- sonhava o capitão, ao sair do consultório do dentista. Quando estava prestes a dizer a Jovial como era bom ser famoso e receber pudins de graça, tropeçou, à saída, e caiu com o nariz no chão. O nariz saltou-se da cara e indignou-se. O capitão olhou para os seus pés e viu que tinha tropeçado numa caixa de cereais integrais e pedaços de fruta.

- Jovial! Uma caixa de cereais!- o capitão, alarmado, apreçou-se a medir o pulso à caixa. Nada a fazer, estava morta!

- Jovial!- chorava o capitão, com uma voz estranha por causa da falta de nariz - Matei-a! Matei a caixa de cereais!

- Eu vi, eu vi!- disse um transeunte com sacos de compras pendurados nas orelhas - Ele deu-lhe um pontapé!

- Foi ele! - berrou uma senhora, a apontar para o nariz do capitão, que descia a rua. O nariz apanhou um susto, fungou, inspirou-se, e espirrou para cima da cara da senhora, que ficou cheia de ranho nos olhos. Distraída, a esfregar os olhos, deixou o nariz fugir por uma esquina.

- Não, capitão! A caixa de cereais já estava morta!- disse Jovial, consolando o capitão que chorava estendido no chão- Repare! A caixa tem uma colher de gelado dentro da boca! Foi asfixiada!

O capitão olhou para o cadáver da caixa de cereais e viu a colher a sair-lhe da garganta.

- Tirem-me daqui!- implorava a colher. Jovial arrancou-a da boca da caixa e ela respirou fundo, aliviada.

- É mais uma peça do faqueiro da “Caramba”!- disse o capitão, a limpar as lágrimas.

- E fala! Talvez nos possa ajudar a descobrir o criminoso… Diga-me, colher… quem matou a caixa de cereais?- perguntou-lhe Jovial.

A colher olhou à sua volta. Para além do capitão e de Jovial, os transeuntes olhavam também fixamente para ela.

- Não lhe vi a cara, porque usava uma máscara… uma máscara de pinguim… e era pequeno, muito pequeno…

- Um anão!- disse o capitão.

- Uma anã!- gritou a senhora do ranho nos olhos.

- Não lhe viu o corpo? – perguntou Jovial, a apanhar uma coisa do chão.

- Não… a máscara tapava-o todo…- a colher, talvez pelo nervosismo, começou a chorar, e Jovial deixou-a ir.

- Pois bem, vamos lá apanhar este assassino! Tem de estar na lista do quiosque, na lista do dentista e ser pequenino! - disse o capitão, seguido de aplausos da parte das pessoas na rua, que paravam para assistir.

- Na lista há apenas quatro nomes comuns…- disse Jovial. Do nada, apareceu um senhor com um tambor, e começou a tocar um ritmo rápido. A expectativa aumentava, e os transeuntes ficavam cada vez mais inquietos. O capitão transpirava da testa e, sem saber, afogou com uma gota do seu suor uma formiga que passava por ali. Então, Jovial clamou:

- Vamos a casa de cada um destes suspeitos até encontrarmos o assassino, e depois as caixas de cereais poderão para sempre viver em paz! - a multidão aplaudiu entusiasticamente, e Jovial montou o seu peru com defeito. O capitão, seguindo-o em cima do porco, indicou a morada do primeiro suspeito, e os dois, eles mais os dois agentes da autoridade e seus perus, aceleraram pela via pública.

Foi então que Jovial teve uma ideia fabulosa. Pensou, repensou, voltou a pensar e finalmente, depois de pedir a lista de suspeitos ao capitão e de a ler, gritou:

- Já sei quem é o assassino!

- Tem a certeza?- perguntou o capitão.

- Absoluta. Capitão, siga-me!

Pouco tempo depois, chegaram a uma pequena quinta. Havia uma pequena casa e, ao lado, um galinheiro, onde as galinhas jogavam dados a dinheiro, e uma pequena horta.

Jovial desceu, entusiasmado, do seu peru, e bateu à porta da casa.

- Já vai- disse uma voz, lá de dentro. Ouviu-se uma flatulência, depois um “Ah…” aliviado, depois um autoclismo e, finalmente, a porta abriu-se, revelando o agricultor da beterraba pendurada no nariz.

- Você!?- perguntou o capitão, surpreendido.

- Eu?- perguntou o agricultor, a apertar o botão das calças e a clicar num ambientador de plástico que tinha em cima da televisão.

- Podemos entrar?- perguntou Jovial, a sorrir.

- O que se passa?- perguntou o agricultor.

Jovial olhou para o chão e viu, perto da porta, um monte de revistas.

- Edições antigas da “Caramba”, hum? Aposto que a todas elas falta o cupão do faqueiro!

- Que quer dizer?.- perguntou o agricultor.

Jovial entrou, e o capitão também. Olharam em volta.

- Jovial, olhe!- disse o capitão, espreitando por detrás de um armário. – É… é…- e revelou uma máscara de pinguim.

O agricultor corou - Eu não sei como isso foi aí parar!

Jovial dirigiu-se à cozinha e abriu uma gaveta.

- Capitão, repare… O faqueiro está quase completo, faltam apenas uma colher de gelado, um garfo e uma faca… as armas dos crimes!

- Crimes? Não… eu…- disse o agricultor, perturbado.

As galinhas interromperam o jogo de dados e postaram-se à janela, para ver melhor.

- E Jovial… este homem tem apenas um metro e meio de altura! É pequenino!

Jovial continuou as buscas na cozinha, e encontrou uma fantástica colecção de cereais de baixo valor nutritivo, tal como tinha adivinhado.

- Estas caixas todas foram o móbil do crime…- disse Jovial- O assassino não conseguia compreender, na sua mente paranóica, como alguém podia preferir cereais saudáveis a uma bela refeição de cereais cheios de açúcar.

- Agricultor, o senhor está preso pelo assassinato de…- disse o capitão, a preparar as algemas.

- Não, espere! Eu não fiz nada!- dizia o agricultor.

- Deixe-se de mentiras, já o apanhámos!- resmungou o capitão.

- Espere - disse Jovial - Este homem está a dizer a verdade.

- Como? - perguntou o capitão, surpreendido.

- O assassino não é este homem mas sim… a beterraba!- disse Jovial, a olhar para a beterraba que pendia do nariz do agricultor.

- Não!- gritou ela, a contorcer-se.

- Sim! Os dois primeiros crimes foram cometidos com mestria, pois não deixou nenhuma marca nem no cadáver nem na arma do crime… No entanto, no terceiro assassinato, o facto de as autoridades estarem tão longe da verdade, fez com que ficasse mais descuidada, como acontece com todos os assassinos em série…

A beterraga contorcia-se, negando tudo.

- Por isso, no terceiro cadáver… encontrei isto!- disse Jovial, a tirar do bolço aquilo que apanharam do chão. Era um pedaço inegável de casca de beterraba.

- Não! Não fui eu!- disse ela.

- E aposto que se observarmos bem essa máscara…- Jovial pegou na máscara e aproximou-a dos olhos - Cá está!- com os dedos, retirou um outro pedaço de casca de beterraga de dentro da máscara.

- Não!

- É pequena e usou inegavelmente esta máscara, que a colher de gelado poderá reconhecer em tribunal; teve sempre acesso às armas dos crimes e, para além disso, esteve com toda a certeza no local do terceiro crime, como este pedaço de casca poderá comprovar. E não dizem que o criminoso volta sempre ao local do crime? Aposto que, na manhã do primeiro assassinato, foi a beterraba que o convenceu a ir até à aldeia…

- S… sim…- disse o agricultor, incrédulo.

- Só teve de se escapulir de noite, altura em que aconteceram os dois primeiros crimes, e voltar, antes de amanhecer, para o nariz deste pobre homem. E aposto que hoje, na altura do terceiro crime, a beterraba lhe pediu para sair…- sugeriu Jovial. O agricultor estava estupefacto.

- Disse-me que ia comprar iogurtes à mercearia…- disse ele.

- A única coisa que me falta compreender, beterraba… é… porquê? Porquê matar todas aquelas caixas inocentes?

- Este ingrato não me liga nenhuma! - explodiu a beterraga, a olhar para o agricultor.

Saiu do seu nariz e foi apanhada pelo capitão, que a prendeu com as algemas - Sempre lhe fiz companhia e sempre o ajudei, mas ele prefere aqueles malditos cereais cheios de açúcar! Quando está com eles esquece-me completamente! É injusto!- gritava a beterraba, desesperada. E a seguir, para o agricultor - Eu sempre te amei! Sempre! Como me pudeste trocar por aqueles cereais?! Como?

O capitão pegou na beterraba e levou-a.

- Beterraba, está presa pelo assassínio de três caixas de cereais integrais.

Jovial seguiu-os.

- Lamento muito…- disse ele ao agricultor.

- Eu… não sabia que ela pensava assim… eu… eu também a amava… - correu para a rua e teve ainda tempo de gritar - Beterraba! Eu também te amo! - antes dela ser levada pelos agentes da autoridade.

- Fantástico, Jovial! Tem a certeza que não quer seguir uma carreira de detective? - disse o capitão, despedindo-se do agricultor. O agricultor, por sua vez, entrou em casa a chorar e, lá dentro, pôs termo à vida dentro do armário das mercearias, junto das conservas e das bolachas.

- Não sei, capitão…

- Ora, ora! Resolveu este caso com uma mestria fantástica! Tem um futuro promissor à sua frente, tenho a certeza!


Passaram-se cinco meses desde que Jovial Trestonho resolvera o que ficou conhecido como o mistério dos cereais integrais. Com alegria, saltitou pela rua da aldeia e por pouco não tropeçou numa boca de incêndio. Era um homem novo: fora condecorado com uma medalha que ostentava com orgulho no sovaco, e recebera um prémio em dinheiro oferecido pelos cereais integrais da cidade por serviços prestados. Com o dinheiro, comprara uma prótese para substituir o seu antigo polegar, que entrava ocasionalmente em curto circuito e começava a fazer o sinal de “fixe” a qualquer pessoa; e comprara também um escritório. Na porta, podia ler-se “Jovial Trestonho, Detective Criminal”; o peru com defeito, excelente dactilógrafo, é agora o seu secretário.

O capitão foi promovido a comandante, mas continuou a chefias as autoridades como sempre fizera e gostara. Fez as pazes com o seu porco; vão casar em Janeiro no primeiro registo civil para animais.

A beterraba, essa, foi condenada à cadeira eléctrica.

- Beterraba, algumas últimas palavras…? - perguntou o agente da autoridade, com a mão na alavanca.

- Sim…- disse a beterraba, presa à cadeira eléctrica e com um capacete de alumínio na cabeça - Amo-te, meu amor… e nem todas as caixas de cereais do mundo podem alguma vez igualar esse amor!

O agente da autoridade, comovido, puxou a alavanca. A beterraba estremeceu com o choque e faleceu rapidamente.

FIM

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1 comentário:

Pedro disse...

Epa oh renato, proximo passo é adaptar esta grande série po grande ecrã, ou então até aqui no pequeno.
Ainda sou do tempo em que tinhas um video de 2 min em que se VÊ tiros lol...e lego...e O Cereal.