sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Contrastes de Sexta à Noite

Hoje vinha eu de metro para casa e deparei-me com uma estranha evidência. Eram isto umas dez e quarenta da noite, e apanhei o metro da linha verde em direcção ao Cais do Sodré. Ia eu de mochila às costas, suado e cansado, contemplando já a possibilidade de chegar a casa e deitar-me na cama para uma reparadora noite de sono quando olhei em volta. Por todo o lado, como uma invasão de baratas, estavam Jovens. Pessoal da minha idade, pessoal mais velho, pessoal com 14 anos que se veste como se tivessem 20 e olham constantemente para as superfícies reflectoras para alisar o cabelo ou reposicionar a gola do casaco.

Ia eu para casa estafado e esta gente, da minha idade, saíra agora das suas casa e dos seus jantares de amigos em direcção à baixa da cidade, prontinhos para uma madrugada de excessos. Pergunto-me: indo eu para casa mal vestido e estafado, a esta hora que para mim é tarde e para esta gente muito cedo, estarei a perder alguma parte marcante, quiçá irrecuperável, da minha juventude? Quantas experiências estarei a deixar passar por escolher a minha casa, a leitura e o descanso em vez dos copos de álcool, ruas cheias de raparigas de decote e festas com música aos berros?

Olhei melhor para esta gente. Perfumada, bem vestida, de cabelos penteados com uma precisão cirúrgica. Passam provavelmente mais tempo na casa de banho a pentear-se do que a estudar para os testes de matemática. Mexem nos seus telemóveis de alta geração, conversam sobre superficialidades, antecipam a noite de festança garantida. Comparam marcas de roupa, procuram raparigas ou rapazes para o flirting, e tentam ao máximo minimizar qualquer resíduo de personalidade para se melhor misturarem na mistela de cabeças vazias que é a minha geração. Actualizam-se no calão, saltitam de bar em bar, seguram o copo de álcool na mão como se dele dependesse um estatuto social. Plastificam-se à vista de todos, para que assim, todos plastificados, não sejam cá diferentes nem esquisitos. Todos amigos, todos iguais. Vistos de longe parecem saídos da fábrica. Uns apanham pielas, outros levam pancada, outros chegam a casa vivos e de moralidade intacta, talvez porque têm mais juízo; a assim na próxima sexta lá estarão outra vez, e o ciclo recomeça como se de uma obrigação se tratasse.

Então? Estarei eu a perder um marco na minha juventude, uma one in a life time experiencia que quanto mais envelhecer mais longínqua se torna? E principalmente, terá isso importância?

Não. Não me parece.

Estou em casa, confortável e no quentinho. Vou deitar-me, amanhã acordo cedo.

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4 comentários:

Ana Sousa disse...

ai renato como eu te compreendo! Ontem também senti isso e não eram 22h40, eram umas 21h... lol Andava eu no autocarro e tavam 3 rapazitos todos arranjadinhos a combinarem os mil e um bares e discotecas por onde íam passar naquela noite de sexta feira... Para mim isso parece.me estranho...!
Às vezes penso se não serei eu que estou mal nesta sociedade... Mas acho que não, eu não tenho de fazer tudo o que os outros fazem não é?! Mas às vezes é tão chato, e sinto-me tão "excluída" nalguns grupos de pessoas só porque o meu hobbie favorito não é beber 20 jarros de cerveja... É triste! Mas tento não me deixar afectar por isso e manter os meus principios.
bem já perdi o fio à meada! lol Beijinhos e não, nós nao estamos a perder a essencia da nossa juventude apenas porque não vamos pa santos todas as sextas feiras!! lol

Paulo39 disse...

É interessante esta tua reflexão.
Mas, a verdade é que é tudo muito subjectivo.
Em relação ao 2º parágrafo do teu escrito. Tenho a dizer que na minha opinião, uma pessoa deve sempre "experimentar" antes de "julgar". Isto é, nem "eles" sabem o que perdem ao não irem para as suas "casas aproveitar "a leitura" e "o descanso", nem tu sabes o que perdes ao não fazer umas noitadas com eles. Ou seja, o que eu acho, é que cada um de nós deve fazer aquilo que gosta e que o deixa satisfeito. No entanto, essas coisas podem não ser as mesmas para todos :\ No meu caso, tento conhecer o maior número de realidades possível, conhecer várias perspectivas, para aí sim, poder optar pelo que mais me satisfaz dentro de um leque vasto de opções. E a nível pessoal, sou, tal como tu, muito caseiro. Gosto de ler um bom livro, dormir bem, etc.

Renato Rocha disse...

Boa opinião, muito diplomática! Não tenho nada contra quem vê nas noitadas uma grande forma de se entreterem, apenas expressei o meu ponto de vista sobre o contraste entre a minha noção de divertimento e a deles. Como já experimentei algumas noitadas, se bem que modestas, sei realmente o que estou a perder; e por isso escolho com toda a confiança ficar em casa!

Abraço

Pedro disse...

Olá a todos!
Está aqui a faltar um outro tipo de opinião e estilo de vida que eu passo a partilhar...
Concordo com tudo o que o paulo disse, acho que é importante termos deversificadas experiências de vida, "um leque alargado de escolhas", para que ganhemos conhecimento (porque não é só através dos livros, é preciso viver o mundo lá fora) e termos a plena consciência das coisas e a certeza do que gostamos.
No meu caso, não sou lá muito caseiro, admito que ás vezes sabe bem, mas sinto necessidade de sair á noite. Estar com os amigos, conhecer gente nova, entrar num bom bar ou numa boa discoteca e desfrutar daquele ambiente de festa, boa musica, gente gira (ainda que muitas desses pessoas sejam de facto "iguais", algumas "sem nada na cabeça" e pouco recomendáveis), o desanuviar de preocupações, etc...é preciso é aproveitar esta fase da vida ao máximo, divertirmo-nos, mas nunca com excessos e cada vez mais responsabilidade, porque paralelamente estão os estudos/vida profissional que é o que nos vale mais.

abraços