sexta-feira, 9 de abril de 2010

Todos os dentinhos de leite

O pequeno Pedro devia estar a dormir, mas não conseguia. O entusiasmo era demasiado; e, tinha de admitir, o medo também.

O dente caíra durante a tarde, enquanto estava a jogar futebol. Parou a meio de uma importante manobra defensiva, levou a mão à boca e retirou um pequeno dente de leite, branco e manchado com sangue. Não gostou da visão, mas não queria começar a chorar à frente dos amigos. Largou o jogo, foi a correr para casa e sentou-se à mesa, com o dente depositado à sua frente em cima de um guardanapo. Olhou-o, enquanto passava a língua pelo pequeno buraco que agora tinha na boca.

A mãe reconfortou-o, explicando que era normal e que, aliás, o dente já estava a abanar há bastante tempo. E que ia acontecer com muitos outros dos seus dentes, ao longo do tempo, até ganhar uma coisa chamada dentição definitiva. Pedro não sabia bem o que dizer em resposta. Era suposto ficar por ali à espera que lhe caíssem os dentes todos? Como faria para mastigar as pastilhas elásticas?

A mãe explicou-lhe que havia um lado positivo naquilo tudo, que era a Fada dos Dentes.

- Estás a enganar-me – disse Pedro. Era miúdo, mas não era burro. Apesar de ainda acreditar no Pai Natal com todas as forças do seu ser, estava na idade de questionar tudo o que lhe diziam.

- Não, não estou. Porque faria uma coisa dessas? A Fada dos Dentes existe. Ela tem um exército de ratinhos que te vêem buscar os dentes que caíram, e em troca deixa-te uma prenda. Pergunta ao teu irmão, a ver se não é verdade.

- Pois pergunto mesmo. É que pergunto mesmo – disse Pedro, subindo as escadas. O irmão estava no quarto, a jogar consola. Interrompeu-o:

- Diogo, é verdade que há a Fada dos Dentes?

- Sai daqui, deixa-me jogar.

- Diz-me!

- Sim, sim.

- E o que faz ela?

- Manda os seus ratos buscar o dente que te caiu e deixam-te qualquer coisa. Uma nota, ou assim.

- Porque me haveriam de dar dinheiro em troco de um dente?

- Porque os dentes na terra dos ratos valem muito dinheiro.

- Como os jogadores de futebol?

- Sim, pois – disse Diogo, sem tirar os olhos do ecrã.

Ora, isto fora exactamente o que a mãe lhe dissera. Pedro estava convencido. Voltou a descer as escadas.

- O que faço agora com o dente? Meto-o numa caixa?

- Não, basta colocá-lo debaixo da almofada.

- E como é que me conseguem tirar o dente de debaixo da almofada sem me acordar?

- Porque… é magia.

- Ah.

- Agora vai lavar as mãos para irmos jantar.

Agora aqui estava ele, à hora de se deitar, olhando placidamente para o tecto do quarto à espera que algo acontecesse. Não podia dormir pensando que ia ser invadido por uma trupe de ratos, mas a ideia de receber uma prenda ou até uma nota agradava-o. Levantou mais uma vez a cabeça, enfiou a mão por debaixo da almofada e posicionou melhor o pequeno dentinho. Voltou a deitar-se. Sabia que a coisa não resultaria se não estivesse a dormir, porque, tal como o Pai Natal, os ratinhos não gostariam de certeza de serem apanhados a fazer o seu trabalho. Fechou os olhos e adormeceu sem se dar conta.

Os ratinhos já tinham entrado pela janela quando o acordaram com o seu barulho. As suas patas faziam um ruído arrastado e irritante no parapeito da janela. Pedro abriu os olhos, praticamente em pânico, mas não se mexeu.

- Caramba, não há luz – disse uma minúscula voz.

- Anda com isso, queres que te empurre? – disse uma segunda minúscula voz.

- Por onde descemos?

- Tens ali o cortinado. Agarra-te.

- Ai, merda.

- Cuidado senão acordas o puto. Desce lá isso.

As patinhas dos ratos arranharam pelos cortinados abaixo, e Pedro podia agora senti-los a atravessar o quarto na sua direcção.

- Quantas casas faltam?

- Não vai chegar, já te disse.

- Não foi isso que te perguntei, perguntei quantas faltavam.

- Umas sete, sei lá eu.

- Não vai chegar.

- Pode ser que este tenha mais do que um. Subo eu, fica aqui quieto.

Pedro parou de respirar. As patinhas subiam agora pelo seu cobertor, e podia sentir as pequenas garras do ratinho a furarem pelos seus lençóis. O ratinho entrou por uma pequena frecha entre a almofada e o colchão, ficou de rabo de fora durante uns segundos e voltou a sair.

- Merda, é só um e pequenino.

- Ouve-me, e agora? Fazemos como?

- Deixa-me pensar!

- Quero que me digas o que fazer! – quase guinchou o ratinho em cima do tapete, olhando para o ratinho ao lado da almofada – Não vou perder o meu emprego por causa de uma coisas destas, percebes? Arranja-te! Denuncio-te, se for preciso! O primeiro era teu, não era meu!

- E eu denuncio-te a ti, sua ratazana! O primo era meu mas tu também recebeste a tua parte pelo trabalhinho, e meio queijo da serra não me parece nada mal para manteres a boca fechada!

- Vai meter o nariz na ratoeira, seu filho de um ganda gato! – guinchava agora o ratinho em cima do tapete, agitando os pequenos bracinhos - Tenho quarenta e três filhos pequenos para criar, e não tenho a tua idade! Combinámos que desviávamos aqueles dentes mas só aceitei porque TU me disseste que a Fada não controlava as quantidades! Sabia lá eu que estavam com falta de dentes para a merda do castelo!

- Quem é que te mandou aceitar, então? Mete a ratoeira no rabo.

- Se não te calas eu vou aí e mordo te o…

- Já sei! Vai lá fora!

- Lá fora?

- Vais lá fora e chama os outros. Tive uma ideia. Vamos conseguir os dentes que devemos num instante. Vai lá!

O ratinho atravessou o quarto, desapareceu pelos cortinados acima e momentos depois regressou com uma dúzia de outros ratos, todos eles correndo atrás uns dos outros.

- Ajudem aqui! – disse o rato que estava mesmo ao lado da cabeça de Pedro. Deu um salto, subiu-lhe para cima do nariz e mordeu-o ameaçadoramente. Pedro deu um grito.

- Ao ataque! – disse o rato, mordendo-lhe o nariz outra vez. Os outros ratos treparam pelo cobertor e cobriram Pedro em segundos. Ele gritou outra vez, agitando os braços, fechando os olhos, sentindo a cara coberta por um exército de garras e pelos espessos. Tentou abrir a boca para gritar outra vez, mas um dos ratos enfiou-se entre os seus lábios e abafou-lhe o berro. Um segundo rato entrou-lhe pela boca, enquanto um terceiro se esticava para alargar os lábios.

Pedro não conseguia abrir os olhos. Já não via nada, não ouvia nada, só podia mexer os braços em pânico e procurar cuspir os ratos que lhe entravam pela boca. Sentiu as pequenas garras a enterrarem-se nas suas gengivas, e um dos seus dentes foi arrancado como uma rolha de uma garrafa. Sentiu os pêlos dos ratos ficarem misturados com o sangue quente, e começou a chorar. Queria chamar pela mãe, mas mal se conseguia mexer. Os ratos continuaram o seu trabalho, e Pedro ia sentindo os dentes a sair como que arrancados à força.

- Já os temos! Fuga, fuga! – gritou um dos ratos, molhado até à cintura de sangue e saliva, tirando a cabeça de dentro da boca de Pedro. Os ratos dispersaram, carregando orgulhosamente um dente nas patas pequenas. Atravessaram o tapete na corrida, deixando pequenos ratos de sangue pelo caminho em forma de minúsculas patinhas.

Pedro levantou-se de um salto, cuspiu para o chão e finalmente pôde gritar. Levantou-se da cama, agitou em pânico o colchão e a almofada, no terror de encontrar outro rato. A almofada voou até ao outro lado do quarto, e os lençóis foram arrancados. No meio da confusão e dos gritos, uma azulada nota de cinco euros desprendeu-se da almofada e planou até ao chão do quarto, onde ficou até à manhã seguinte.

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1 comentário:

Johnny Dice disse...

Epico! Fiquei um pouco aterrorizado no final e estava a espera de o ter salvo. mas devia tar a jogar "consola" hehehhe


Do teu irmão, pha