terça-feira, 2 de agosto de 2011

Cento e setenta e nove

Uau, eu estou o máximo. Parabéns, donos, parabéns. Fascinante decisão. Que fazer quando a economia está como está? Investir na educação dos filhos? Poupar? Mudar-se para o campo e cultivar batatas? Não: gastemos uma significativa quantidade de dinheiro a pintar o nosso carro. Melhor ainda: de vermelho! Porquê? Porque se o carro sempre foi bege, gosta de ser bege, fica bem de bege e a sua cor original é bege, porque não melhorá-lo e dar-he uma cor que nenhum outro carro tem no mundo? É que se há coisa que nunca passou pela cabeça de ninguém, especialmente do meu dono com sérios, sérios problemas de afirmação pessoal, foi em ter um carro vermelho. Quê, é ameaçador? É fixe? É fixe, deve ser isso. Eu sou apenas um carro velho, a minha noção de fixe é usar a minha cor de sempre e com a qual vivia feliz e com personalidade. Agora sou como os outros carros todos, vermelhos, brilhantes, incríveis, fantásticos e únicos. Tenho quatro mudanças, chupo água porque o radiador está estragado, o meu motor range, os meus pneus andam meio soltos, o tubo de escape vibra exageradamente e poluo que é uma beleza. O que será mais essencial que uma pintura vermelha? Sim, realmente dessa forma ninguém reparará que o meu dono tem um carro de mil oitocentos e sete, quando se aproximar no seu destino com a brilhante e cromada cor vermelha reflectindo o sol de agosto a condizer com o gorgolejar do meu motor e o pinga-pinga crónico de óleo. Incrível, fenomenal. Se me sinto como novo? Então não. Nunca me senti assim. Quando muito em breve for parar ao ferro velho ou à garagem de carros apropriados pelo banco vou ser sem dúvida o mais lindo de todos os automóveis.

http://creativewritingprompts.com/

1 comentário:

Ana Sousa disse...

Adorei a ideia desse site! Também vou experimentar! =D